Ficha de Casa Religiosa
    
Designação
Hospício de São João Nepomuceno

Código
LxConv081

Outras designações
Hospício de São João Nepomuceno de Lisboa; Convento de São João Nepomuceno

Morada actual
Largo de São João Nepomuceno, 7

Sumário
Fundado por três religiosos alemães da ordem dos carmelitas descalços que acompanharam D. Maria Ana da Áustria na sua vinda de Lisboa para casar com D. João V, de modo a providenciar auxílio espiritual aos alemães residentes em Lisboa.

Após quinze anos instalados em ermidas ao Corpo Santo e à Calçada do Combro, instalam-se em 1723 numas casas sitas junto do monte de Santa Catarina, nas quais, por ordem da rainha, é fundado um hospício cuja igreja, dedicada a São João Nepomuceno e Santa Ana, foi benzida a 19 de Março do mesmo ano.

Em 1754, e por vontade expressa pela monarca, D. Maria Ana é sepultada num mausóleu na capela-mor da igreja.

Com a sucessiva diminuição do número de religiosos alemães e consequente desaparecimento no panorama religioso da cidade, entre 1830 e 1834 instalam-se no edifício uma congregação de Clérigos Redentoristas e os religiosos de São Francisco de Paula. A 11 de Fevereiro de 1838 foi transferida para a igreja do edifício a Ordem Terceira de São Francisco da Cidade. Entre Maio e Outubro de 1861 a Sociedade Farmacêutica Lusitana esteve instalada no edifício, até este ser cedido ao Asilo dos Órfãos Desvalidos de Santa Catarina, mantendo a sua função educacional desde então, sendo actualmente o Centro de Educação e Desenvolvimento da Casa Pia.

Caracterização geral
Ordem religiosa
Ordem dos Carmelitas Descalços, Carmelitas Descalços Alemães até 1830
Ordem dos Mínimos, de 1833 a 1834
Congregação do Santíssimo Redentor, de 1830 a 1833

Género
Masculino

Fundador
D. Mariana de Áustria - Iniciativa régia

Data de fundação
1723

Tipologia arquitetónica
Arquitetura religiosa\Monástico-conventual

Componentes da Casa Religiosa - 1834
Hospício
Igreja
Pátio / Quintal

Caracterização actual
Situação
Hospício - Parcialmente demolido(a)
Igreja - Demolido(a)
Cerca / Quintal - Existente

Ocupação
Ocupado(a)

Acesso
Privado\Condicionado

Descrição
Enquadramento histórico
Aquando da vinda de D. Maria Ana da Áustria para Lisboa para o seu casamento com D. João V, vieram três religiosos alemães da ordem dos carmelitas descalços, em virtude de a rainha considerar existir necessidade de providenciar auxílio espiritual aos alemães residentes em Lisboa. Numa primeira fase, e durante alguns anos, instalaram-se junto à Ermida de S. Pedro Gonçalves (ao Corpo Santo), daí transitando para a Ermida da Ascenção de Cristo (à Calçada do Combro). Em 1723 instalam-se numas casas sitas junto do monte de Santa Catarina, nas quais, por ordem da rainha, é fundado um hospício cuja igreja, dedicada a São João Nepomuceno e Santa Ana, foi benzida a 19 de março do mesmo ano (Gazeta de Lisboa, 1723, nº12, p. 96). Em 1754, e por vontade expressa pela monarca, D. Maria Ana é sepultada num mausoléu na capela-mor da igreja, a 16 de Agosto, dois dias após a sua morte. No ano seguinte, o terramoto de 1 de Novembro provoca pequena ruína ao edifício. Com a sucessiva diminuição do seu número, em 1830 os religiosos carmelitas descalços alemães cedem o edifício aos Redentoristas da Ordem de Santo Afonso de Ligória (Congregação do Santíssimo Redentor), chegados a Lisboa após pedido expresso por D. João VI em 1826, que pretendia que continuassem o trabalho de assistência à comunidade alemã. Porém, em 1833, na sequência do corte de relações entre o Estado Português e a Curia Romana, deixam o edifício e o país. Uma vez desocupado, o edifício foi ocupado pelos religiosos de São Francisco de Paula, durante cerca de um ano (até à extinção das ordens religiosas). Em Outubro de 1834, e durante pouco tempo, o edifício é ocupado pelo 12º Batalhão da Guarda Nacional, sendo no mesmo ano ocupado por um colégio de latim. (PEREIRA, 1927, p. 100). A 11 de Fevereiro de 1838 «foi transferida a Ordem Terceira de S. Francisco da Cidade, que se achava na sua Igreja que S. Magestade lhe havia feito mercê, para a mencionada igreja de S. João Nepomuceno, a qual veio em grande procissão, e collocarão em dous nixos as imagens de S. Francisco e de S. Domingos, aos lados da Capella mór» (CASTILHO, 1981, p. 290). Em 1861 foi concedido à Sociedade Farmacêutica Lusitana a exploração e acomodação no «edifício do extincto Convento de S. João Nepomuceno [que] estava abandonado, sem uso ou destino algum público, depois da mudança do Lyceo Nacional de Lisboa [que ainda se encontrava no edifício em 1857] para outro local [...] para n'elle estabelecer a sala das suas sessões e gabinete de comissões» (RIBEIRA, 1887, p. 213), existindo nesta concessão uma cláusula que previa a cessação de uso caso o governo considerasse necessário dispor do edifício. Após a sociedade ter levado a cabo obras de reparação do edifício e de nele se ter instalado, o edifício é cedido ao Asilo dos Órfãos Desvalidos de Santa Catarina por via da lei de 9 de Outubro do mesmo ano. O facto de serem obrigados a abandonar o edifício provocou natural revolta no seio da Sociedade: «Não podendo prestar-se ao pagamento de uma renda superior ás rendas do seu mesquinho cofre, solicitou e obteve do governo de S. M. um edifício abandonado e em ruínas, o convento de S. João Nepomuceno. Passou-se então a reconstruir no edifício concedido os repartimentos e mais obras necessárias para n'elle funccionar. Fez um inaudito esforço, gastou perto de 400$000 réis, efeituou a sua mudança e ficou maravilhosamente bem colocada. Porém, senhores, aquelle montão de ruinas não havia até então despertado a atenção de alguém. Logo que se viram aquelles melhoramentos, as coisas mudaram inteiramente. A sociedade foi desalojada, perdeu quanto tinha despendido.» (RIBEIRA, 1887, p. 214). A função educacional mantém-se desde então, sendo actualmente o Centro de Educação e Desenvolvimento da Casa Pia.

Caracterização arquitectónica
A construção do edifício do hospício e da igreja parte de um conjunto de casas onde os religiosos se instalaram, a Santa Catarina, em 1723, ano em que a igreja é benzida. Segundo Castilho, em 1737 terá ocorrido «uma reconstrução [...] feita sobre projecto de Carlos Mardel"» (Castilho, 1981, p. 287) resultando no edifício que Gonzaga Pereira representa em 1842, cujo mais significativo aspecto era a fachada da sua igreja, ricamente ornamentada, numa linguagem de encontro ao barroco alemão coevo, «não deicha[ndo] de dar toda a ideia de hum edeficio regio, e a sua forma circular he sumptuosa e de grande trabalho de izicução» (PEREIRA, 1927, p. 99). O edifício sofreu profundas obras que apagou a maioria das suas características religiosas, não subsistindo nenhum elemento da fachada do templo, aludindo justamente a esse facto Júlio de Castilho quando afirma desconhecer a data «das grandes obras [que] tiraram à frontaria do edifício o ar de casa religiosa que aliás no interior conserva ainda com o seu pequeno claustro, hoje recinto reservado ao recreio das asiladas» (CASTILHO, 1981, p. 291), sendo no entanto de admitir que tal tenha ocorrido no decorrer da segunda metade de oitocentos, possivelmente aquando das obras levadas a cabo pela Sociedade Farmacêutica Lusitana. Para além da alteração da fachada, não subsiste igualmente nenhum elemento do espaço da igreja, a qual Gonzaga Pereira descreve como possuindo uma planta «muito pequena, e quaze quadrada; poden[do] acomodar 300 fiéis [...] possu[indo] [...] 3 capellas com a primaria, em que se acha colocada huma pequena imagem de S. João Nepomoceno.» (PEREIRA, 1927, pp. 97-98).

Inventário de extinção
Segundo nota a lápis numa das duas folhas do processo existente na ANTT, o processo de extinção não existe no tesouro (ANTT, Inventário de Extinção..., Cx. 2236).

Cronologia
1708 Vinda de três religiosos carmelitas descalços alemães na sequência da vinda de D. Maria Ana de Áustria para o seu casamento com D. João V.
1723 Instalação dos religiosos numas casas sitas junto do monte de Santa Catarina, nas quais, por ordem da rainha, é fundado um hospício.
1723-03-19 A igreja do hospício é benzida pelo Padre Superior Leopoldo de Santa Maria.
1749-06-17 Colocação no templo da imagem do Menino Jesus de Praga, tendo assistido ao acto a Rainha D. Maria Ana de Áustria.
1752-01-24 Decreto de D. José I a tomar o hospício sob real protecção.
1754-08-14 Morte da Rainha D. Maria Ana de Áustria.
1754-08-16 Por sua vontade, a monarca é sepultada num mausoléu na capela-mor da Igreja do Hospício de São João Nepomuceno. (
1826-06-26 Chegada, por via marítima a partir do porto francês de Havre, cinco religiosos alemães para o Hospício de São João Nepomuceno.
1829-05-16 D. Miguel assiste à festa de São João Nepomuceno celebrada no hospício. Depois da missa seguiu-se um "Te Deum" em acção de graças pelo restabelecimento do monarca.
1829-05-27 Na igreja do convento cantou-se um "Te Deum Laudamus" em acção de graças pelo restabelecimento de D. Miguel. Assistiram, entre outros, importantes membros da nobreza e um grande número de eclesiásticos regulares e seculares.
1830 Saída dos religiosos alemães, instalando-se no edifício uma Congregação de Clérigos Redentoristas franceses da Ordem do Beato Afonso Maria de Legório.
1833 Expulsos os franceses, o edifício é ocupado pelos Religiosos da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula.
1834-05-30 Decreto de extinção de todas as casas religiosas masculinas das ordens regulares e incorporação dos seus bens nos Próprios da Fazenda Nacional.
1834-08-19 Portaria do Tribunal do Tesouro Público sobre a venda e o arrendamento dos bens nacionais. Determina que o Perfeito da Província da Estremadura dê orientações para que se proceda à venda dos bens móveis e semi-móveis, excepto os objetos do culto divino, as peças de ouro e prata e as livrarias; e que arrende, por um ano, todos os prédios rústicos e urbanos da Fazenda Nacional.
1834-10 Ocupação do edifício pelo 12º Batalhão da Guarda Nacional.
1838-02-11 Ocupação do templo pela Ordem Terceira de São Francisco da Cidade.
1857 Funcionava no edifício o Liceu Nacional.
1861-05-16 Portaria que autoriza a Sociedade Farmacêutica Lusitana, vinda do Recolhimento da Mouraria, a instalar-se no edifício.
1861-09-10 Lei concedendo o uso do edifício à Comissão do Asilo dos Órfãos Desvalidos de Santa Catarina, que funcionava desde a sua fundação (a 1 de Janeiro de 1858) numa casa da Rua das Parreiras.
1910 Na sequência da implantação da República, a capela foi profanada e o estandarte substituído.

Fontes e Bibliografia
Material gráfico

Planta da extinta Igreja de São João Nepomuceno e parte do edifício contíguo, com o projecto para três aulas na área da igreja que são precisas ao Asilo de Santa Catarina que está ocupando aquele edifício, assim como o projecto para fazer dos dois palcos um só com passadiço à roda para haver a comunicação das novas aulas com o resto do edifício. Planta do pavimento superior. Arquivo Nacional Torre do Tombo.

Planta da extinta Igreja de São João Nepomuceno e parte do edifício contíguo, com o projecto para três aulas na área da igreja que são precisas ao Asilo de Santa Catarina que está ocupando aquele edifício, assim como o projecto para fazer dos dois palcos um só com passadiço à roda para haver a comunicação das novas aulas com o resto do edifício. Planta do pavimento térreo. Arquivo Nacional Torre do Tombo.

Cartografia

CARVALHO, José Monteiro de; - [Livro das plantas das freguesias de Lisboa]. Códices e documentos de proveniência desconhecida, nº 153, Planta da freguezia de S. Paulo, f. 40 (imagem 0094).

[Enquadramento urbano | Hospício de São João Nepomuceno de Lisboa, 1834].

[Enquadramento urbano | Hospício de São João Nepomuceno de Lisboa, 2015].

Manuscrito

Inventário de extinção do Hospício de Nossa Senhora do Desterro de Lisboa. [Manuscrito]. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Ministério das Finanças, Hospício de Nossa Senhora do Desterro de Lisboa, Cx. 2225, f. 0174-0176.

Inventário de extinção do Hospício de São João Nepomuceno de Lisboa. [Manuscrito]. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Ministério das Finanças, Hospício de São João Nepomuceno de Lisboa, Cx. 2236.

Monografia

CASTILHO, Júlio de - A Ribeira de Lisboa: Descrição Histórica da Margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho, Volume IV. 4ª Edição Edição. Lisboa: Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1981, pp. 285-292.

CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo Segundo, Parte III e IV. Lisboa: Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1763, p. 76.

CONCEIÇÃO, Fr. Cláudio da - Gabinete Histórico, Tomo VII. Lisboa: Impressão Régia, 1820, p. 76.

PEREIRA, Luís Gonzaga - Monumentos Sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1927, pp. 97-100.

PORTUGAL, Fernando; MATOS, Alfredo de - Lisboa em 1758: Memórias Paroquiais de Lisboa. Lisboa: Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1974, pp. 217 e 309.

RIBEIRA, Jorge Silvestre - História dos Estabelecimentos Scientificos Literários e Artísticos de Portugal nos Successivos Reinados da Monarchia, Tomo XV. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1887, pp. 213-214.

Periódico

Decreto de 24 de Janeiro de 1752. Supplemento à Collecção da Legislação Portugueza [...]. Anno de 1750 a 1762. Lisboa: Na Typ. de Luiz Correa da Cunha. 1842, p. 124.

Gazeta de Lisboa nº 149. Lisboa: Na Impressão Régia, [28 de Junho de 1826], p. 599.

Gazeta de Lisboa, nº 116. Lisboa: Na Impressão Régia, [18 de Maio de 1829], p. 474.

Gazeta de Lisboa, nº 12. Lisboa [1723], p. 96.

Lei de 10 de Setembro de 1861. Collecção Official de Legislação Portugueza [...]. Anno de 1861. Lisboa: Imprensa Nacional. 1862, p. 323.

Material Fotográfico
Hospício de São João Nepomucenol | Exterior | Fachada SE| Pormenor. DPC_20150904_128.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2015.

Hospício de São João Nepomuceno | Exterior | Fachada nascente. EDP000842.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Inventariantes
Tiago Borges Lourenço - 2015-01-16
Última atualização - 2019-03-08

Imagens: 2