Ficha de Casa Religiosa
    
Designação
Colégio de São Francisco Xavier

Código
LxConv085

Outras designações
Colégio do Paraíso; Hospício do Paraíso; Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo; Hospital da Marinha

Morada actual
Rua do Paraíso; Largo Dr. Bernardiono António Gomes (Pai); Calçada do Cardeal

Sumário
Destinado ao ensino elementar de latim e da náutica, o Colégio de São Francisco Xavier foi fundado em Alfama graças a uma doação testamentária à Companhia de Jesus, feita por Jorge Fernandes Vilanova, falecido em Março de 1677. Após um período inicial de oposição de parte das autoridades eclesiástica e régia, o colégio começa a funcionar em 1682 junto à Igreja do Paraíso, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Lisboa.

Face à prosperidade da instituição e ao crescimento do número de alunos, foi decidida a construção de uma igreja e a reconstrução do edifício, iniciada em 1727. À parte da igreja (à época ainda incompleta), a edificação sofreu pouca destruição com o Terramoto de 1755.

Depois da expulsão dos jesuítas em 1759, as instalações do Colégio de São Francisco Xavier foram ocupadas pelas «Recolhidas do Castelo», sendo em 1788 denominado «Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo». Em 1797 o edifício é adaptado por Francisco Xavier Fabri para nele se instalar o Hospital da Marinha, inaugurado em 1806. Ampliado no decorrer dos séculos XIX e XX, o hospital é desativado em 2013, encontrando-se o edifício desocupado desde então.

Caracterização geral
Ordem religiosa
Companhia de Jesus

Género
Masculino

Fundador
Jorge Fernandes Vilanova - Cláusula testamentária

Data de fundação
1682

Data de extinção
1759

Autoria
Francisco Xavier Fabri - Arquitecto, Projecto de adaptação a Hospital da Marinha, entre 1797 e 1805.

Tipologia arquitetónica
Arquitetura religiosa\Colegial

Caracterização actual
Situação
Colégio - Existente
Igreja - Existente

Ocupação
Colégio - Devoluto(a)

Descrição
Enquadramento histórico
A distância entre o bairro de Alfama e a zona do Martim Moniz, perto da qual se localizava o Colégio de Santo Antão-o-Novo, levou a Companhia de Jesus a construir um outro colégio que melhor pudesse servir os habitantes daquela parte da cidade.

Para esse efeito, Jorge Fernandes Vilanova doou em testamento a sua fortuna à Companhia para que esta funna parte oriental de Lisboa, um colégio sob a invocação de São Francisco Xavier. A instituição deveria ser dotada de três escolas ou classes, uma elementar para crianças, outra de latinidade para estudantes mais crescidos e uma terceira de náutica. Esta última, maioritariamente destinada aos moradores de Alfama (de entre os quais existiam muitos homens do mar), tinha como intenção facultar «uma lição de Náutica [a qual determinaria que] se leia nos domingos e dias santos à tarde, em que os ditos homens do mar costumam estar menos ocupados» (História dos Mosteiros, II, 1972, p. 158).

Não obstante a oposição de alguns fidalgos do Conselho do rei, da Congregação do Oratório e da vizinha Irmandade de Nossa Senhora do Paraíso, a fundação do novo colégio ocorre pouco depois da morte de Jorge Fernandes Vilanova (7 de Março de 1677). A nova instituição veio a erguer-se junto à Igreja do Paraíso que se pretendeu integrar no colégio, tal como acontecera no século XVI com a Ermida de São Roque, incorporada na Igreja de São Roque.

A historiografia não é consensual sobre a data exata da fundação do novo colégio jesuíta, afirmando António Franco que a mesma terá ocorrido em 1679 (RODRIGUES, I, 1944, p. 48). Por seu turno, o jesuíta anónimo que escreveu a História dos Mosteiro, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa (que talvez tenha sido Diogo de Castilho e vivido no Colégio de São Francisco Xavier, onde se encontrava originalmente a referida obra), registou em 1707 que os jesuítas fizeram no local do colégio uma «pequenina igreja, e nela se colocou o Senhor em Dezembro de 1682, tempo do qual se começa a contar a fundação» (História dos Mosteiros, II, 1972, p. 160). Assim, esta última data será a mais correta, sendo possível que a data apontada por António Franco se reporte à da do início dos esforços para a sua criação.

Em 1681 ainda se faziam consultas da Câmara Municipal de Lisboa a D. Pedro II sobre o intento de «fundar um colégio» que os jesuítas pretendiam instalar em Alfama em terrenos da Câmara que andavam aforados (OLIVEIRA, VIII, 1896, p. 430). Uma dessas consultas, atualmente no Arquivo Municipal, data de 16 de Setembro e refere a necessidade de fazer algumas diligências «antes de começarem a abrir os alicerces dela», considerando-se que ela «é sem serviço de Deus, e educação da puerícia e ensino da arte de navegar». O parecer favorável a tal obra considerava a «utilidade que se segue para a fundação daquele colégio» (Idem, pp. 430-431).

Em nova consulta sobre a referida autorização, datada de 12 de Novembro de 1681, refere-se o empenho dos jesuítas em fazer «a nova edificação do colégio que intenta naquele sítio, para a educação da puerícia e ensino da navegação» considerando «ser de grande utilidade a fundação deste colégio», nomeadamente por ser tão útil e necessário «ensinar meninos a ler e escrever, instruindo-os na doutrina cristã e a navegação» (idem, p. 435). É de assinalar que neste último documento se referia a oposição a tal construção por parte «dos irmãos e mordomos da irmandade de Nossa Senhora do Paraíso», que também estavam interessados na aquisição dos terrenos em causa por ficarem junto à sua igreja (Idem, pp. 435-436).

O colégio é assim fundado graças à «dizposiçam do testamento [...] [de Jorge Fernandes Vilanova], herdeyro universal o futuro Collegio, pera cuja fundaçãm se recorreo pella licença à Magestade d'El-Rey Dom Pedro o segundo. E posto q[eu] assim elle como todos os ministros reaes difficultassem muyto a fundaçãm de novas casas religiosas, parecendolhes que sendo tantas as que ha, assim nesta cidade como em todo o Reyno, nam convem acrescentar mays, specialmente aquellas em que os religiosos se ham de sustentar de rendas que resultem das fazendas que possuem, parecendolhe que sendo o Reyno tam limitado, e sendo tanto o que nelle possuem assim as Religiões como todo o estado ecclesiastico, nam convem acrsecentar mays casas religiosas, mas com estar esta máxima muy assentada nos animos dos ministros, contudo a fundaçãm deste novo Collegio nam dezagradou nem a El Rey nem a seos ministros, e assim se alcançou brevemente a licença que se pretendia.

Mayor foi a difficuldade em conseguir da Irmandade de Nossa Senhora do Paraiso a doaçãm da sua igreja que se dezejava, por ser muy conveniente, mas os Irmãos se escusaram, dizendo haver na Irhum assento de que nunca se faria doaçãm da ditta igreja a Religião alguma, e assim foy obrigada a Companhia a buscar outro sitio, que nam era facil achar com as condições que se dezejavam e eram necessarias pera dar inteyro cumprimento a vontade e dezejo do fundador. Mas finalmente, passados quatro annos em que dous padres se acommodaram em humas casas de aluguel, até que escolheram sitio proximo à igreja do Paraíso, e da mesma parte da igreja comhumas casas que ainda que nam erão largas, nellas acommodaram em dous pequenos corredores alguns aposentos em que assiste de ordinario como superior o Mestre de Latim e o da Eschola, e outro sogeyto mays, que tem cuydado das cousas da casa. E algumas vezes ha mays outro sacerdote que faz officio de Procurador e serve de ajudar a confessar, principalmente nos domingos e dias sanctos a muyta gente que busca o confessionário daquella pequenina igreja, em que se colocou o Senhor em Dezembro de 1682, tempo do. qual se começa a contar a fundaçãm, que até agora, por difficuldades que tem ocorrido, está tam pouco adiantada que ainda se não tem dado principio à igreja, o que muyto dezejam nam só os Padres moradores da Casa mas também todos os daquella visinhança, que se servem delles nam só indoos buscar pera com elles se confessarem na sua igriginha, mas otambem para os chamarem a sua casa quando estam enfermos, nam só a qualhora do dia, mas também da noyte, pera que os acham promptos com serem tam poucos como temos ditto.

O sitio da casa, ainda que he limitado, logra belissima vista sobre o rio que lhe fica muy próximo, e quando passam os olhos da aga do rio os recream com a vista de muytos lugares que descobrem da outra parte delle. E nam só gozam os moradores daquella pequena casa o alivio da boa vista que ella lhe offerece, mas tambem a recreaçãm de huma pequena horta, provida de muyta e. boa agoa, que lhe dá hum poço muy copioso della, com que lhe. nam falta nunca boa hortaliça, nam só pera provimento da casa mas tambem pera com ella fazer mimo e regalo, specialmente no tempo do veram a algumas casas a que os padres se reconhessem mays obrigados, e tambem a algumas pessoas pobres que por necessidade a mandam pedir, a que os Padres costumam acodir com boa vontade. E como todos os moradores daquella visinhança conhecem boa vontade em os padres, todos mostram tambem dezejo de ver adiantada a fabrica da igreja e da casa, que tendo começado ha vinte sinco annos se tem adiantado tam pouco que se pode dizer que ainda nam começou, porque na igreja que há de ser ainda se nam lançou a primeyra pedra, e da fabrica que se determina fazer nada está feyto por difficuldades que se tem offerecido, que espese vencerám por beneficio do Senhor pera cujo serviço se pretende fazer o. Collegio» (História dos Mosteiros..., II, 1972, pp. 159-160).

O colégio prosperou e ainda no século XVII a aula de latim chegou a contar com 150 estudantes e a elementar com mais de 200. O ensino da Náutica não foi ministrado, pelo menos até 1689 (RODRIGUES, I, 1944, p. 49). Face ao crescimento dos alunos foi decidido construir um edifício maior, cuja primeira pedra foi colocada em 28 de Junho de 1727, ainda que se possa admitir que esta data corresponda à do início da construção da igreja que em 1707 era muito desejada (Idem, p. 50).

A existência de dois corredores, observáveis na planta de 1788, e que ainda hoje permanecem no local primitivo nos dois primeiros pisos do edifício, levam a que se possa admitir que, no essencial, a estrutura do colégio tenha sido a mesma desde 1682 [«passados quatro anos em que dois padres se acomodaram em umas casas de aluguer, até que escolheram sítio próximo à igreja do Paraíso, e da mesma parte da igreja comprando umas casas que ainda que não eram largas, nelas acomodaram em dois pequenos corredores alguns aposentos, em que assiste de ordinário como superior o mestre de Latim e o da Escola, e outro sujeito mais, que tem cuidado das cousas da casa» (História dos Mosteiros, II, 1972, p. 159)].

Em 1764, cinco anos após a saída da Companhia de Jesus do seu Colégio de São Francisco Xavier em 1759, a narrativa do padre jesuíta José Caeiro refere que «Procedeu-se mais delicadamente com os padres do colégio de São Francisco Xavier, também chamado do Paraíso. O desembargador Gregório Dias, sem transgredir as ordens do rei, nada acrescentou por si de que os jesuítas se pudessem queixar. Pois, enquanestiveram no colégio viveram do que possuíam; e nada por esses dias se fechou nem vendeu.

A 12 de Fevereiro avisou os jesuítas, antes do jantar, que iam ser levados para a casa professa de São Roque; que preparassem em consequência as camas e a roupa, e alguma coisa mais que fosse própria; mas que todos os escritos e livros lhos entregassem a ele. Depois, passados poucos meses, restitui-os com fidelidade.

Enviadas adiante as outras coisas por carregadores até à casa professa mandou que os jesuítas se pusessem a caminho, subindo para os carros, depois de os entregar ao notário e a quatro soldados; mas não quis ele mesmo levar os presos à sua frente.

Aos que iam a sair participou ter recebido a ordem de sacudir as roupas de cada um; mas depois, abraçando a todos com grande afeto, disse que desta maneira dava por terminadas as ordens recebidas.

Saíram do colégio de S. Francisco Xavier três padres - Pedro Alfaia, superior; Bartolomeu Vasques e António Salgado e um irmão coadjutor, José Marinho» (CAEIRO, III, 1999, pp. 57-58).

Em 1775, «a Igreja de Nossa Senhora do Paraíso foi parcialmente demolida, a fim de facilitar a passagem da estátua equestre de D. José a caminho da Praça do Comércio. Não tendo havido uma imediata reparação dos estragos provocados na Igreja, a respectiva Irmandade enviou em 1778 uma petição à Rainha, referindo esse facto e pedindo a reparação do edifício, o que levou D. Maria I a ordenar à Junta do Comércio, a 10 de Junho de 1778, que mandasse reedificar [o que na igreja fora demolido] [...]. As obras de reconstrução devem ter sido realizadas pouco tempo depois, uma vez que a Igreja já funcionava normalmente nas décadas seguintes» (CARREIRA, 2012, pp. 322-323).

Até 1797 o Colégio de São Francisco Xavier passa a ser ocupado por umas «Recolhidas, chamadas do Castelo», passando a designar-se «Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo, cito no colégio dos extintos jesuítas denominado do Paraíso», de acordo com a identificação que dele se faz em duas plantas traçadas por Manuel Caetano de Sousa para o «projeto para a comodação das recolhidas», apresentado em 1788 e cuja concretização se desconhece.

A 1 de Julho de 1797 o intendente geral da polícia Pina Manique indicou ao então secretário de Estado dos Negócios da Marinha (D. Rodrigo de Sousa Coutinho, mais tarde conde de Linhares), o antigo colégio jesuíta de São Francisco Xavier como o melhor lugar para instalar o futuro Hospital da Marinha (Idem, p. 322). Aceite a sugestão e por via a permitir que se começasse a proceder a projetada adaptação, a 6 de Julho de 1797 são dadas ordens para que fosse procurado outro local para albergar as recolhidas. A 27 de Setembro seguinte foi emitido, por ordem formal de D. Maria I, o alvará com a criação do Hospital da Marinha, aí se lendo que para esse efeito foi doado «o Hospício que foi dos jesuítas ao Paraíso, cujo local mandei entregar à administração da Real Junta da Fazenda da Marinha; e tendo determinado que no mesmo sítio se erija um edifício com todas as acomodações para o mesmo fim»). Foi então contraído um empréstimo de 150 000 cruzados para executar o projeto de acordo com um risco que fora aprovado, o qual sabemos se ter ficado a dever ao arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri (CARREIRA, 2012, p. 327).

Enquanto as obras para a adaptação do local às suas novas funções decorreram os doentes estiveram no antigo Convento dos Bernardos, ao Desterro (LxConv004).

No processo de avaliação das condições para a realização das obras foi levantada, em Julho de 1797, uma planta sumária do edifício com a indicação de nela se apresentar a «Configuração do Terreno que ocupava o Ospicio que foi dos Padres Jesuitas, junto com o das Recolhidas do Castello, cujo terreno [apresentava] o Norte fazendo frente as cazas do Almirante, o sul aos Quartéis do Caes, o Leste as cazas do Conde Sampayo, e Oeste com a Igreja do Paraizo cuja configuração se tirou com aproximação possível, podendo-se medir unicamente o que não era Clauzura, e sem moradores» (AHU, Conselho Ultramarino, MR, Cart. m_076, D 19). Por esta planta corrobora-se a indicção de que a igreja estava arruinada (ainda que em 1788 fosse considerada «incompleta»), o que poderá levar a deduzir que o Terramoto de 1755 a afetou (CARREIRA, 2012, p. 324).

Adélia Carreira refere que para as obras de adaptação a Hospital da Marinha foram feitas duas propostas de adaptação. Apesar de nenhuma estar assinada, identificou uma («Breves apontamentos para se Edificar hum novo e Real Hospital da Marinha sobre hum chão cito na Freguezia do Paraízo, aproveitando tudo o que nelle se achar») como podendo ter sido do arquiteto Manuel Caetano de Sousa (1742-1802), enquanto a outra («Respostas aos Breves Apontamentos feitos por hum Autor Anónimo, para a edificação de hum novo, e Real Hospital da Marinha, projectado em hum Edificio existente») aceitou ser de Francisco Xavier Fabri (1761-1817), devido à «semelhança existente entre a grafia desse texto e a de outros assinados pelo arquitecto italiano e [...] [ao] facto de muitas das sugestões (contra-propostas) aí apresentadas terem sido posteriormente contempladas na construção do Hospital» (Idem, p. 327). Ainda assim, algumas questões relacionadas a estes dois projetos mantêm-se em aberto, nomeadamente «saber se a opção de D. Rodrigo de Sousa por Fabri foi anterior ou posterior à análise das referidas propostas para a construção do Hospital? E, se foi anterior, teria sido o Secretário de Estado da Marinha pressionado pela coroa para, na fase inicial da apresentação de propostas, incluir o arquiteto Manuel Caetano de Sousa? Ou teria o próprio Secretário de Estado desejado confrontar a proposta do prestigiado Manuel Caetano de Sousa - que tinha alguma experiência em construções hospitalares, como evidenciara na intervenção do Hospital da Luz - com a do jovem arquiteto italiano, cujo curriculum revelava, entre outras coisas, um grande domínio das técnicos imprescindíveis para a eficiência do edifício hospitalar a construir?» (Idem, pp. 325-326).

Depois de afastado o projeto de remodelação de Manuel Caetano de Sousa, as obras de adaptação decorreram sob a orientação do arquiteto Francisco Xavier Fabri, que já tratara do projeto de remodelação de 1788, partindo de plantas bem mais rigorosas do que as de 1797. Nesta última data, Fabri traçou um «Risco, para se conhecerem as diferenças dos níveis no interior do edifício», mencionado no Alvará de 27 de Setembro de 1797 (idem, p. 327).

«Contraído o empréstimo, iniciaram-se as obras de construção do Hospital da Marinha mas, decorridos menos de três anos, a 12 de Janeiro de 1800, o Regente D. João determinou a sua suspensão (e também a suspensão das obras da Cordoaria, e do Porto de S. Martinho [e] todos os trabalhos do Arsenal), por já estarem esgotadas as verbas consignadas ao empreendimento. [...] Preocupado com a suspensão das obras do seu Hospital, D. Rodrigo de Sousa tentou encontrar soluções para resolver o problema financeiro, ao mesmo tempo que usava de toda as suas capacidades argumentativas para convencer o Regente D. João sobre a importância do empreendimento. A solução encontrada para a obtenção de mais dinheiro, foi a da ampliação do empréstimo contraído para os duzentos e quinze mil cruzados, vindo essa decisão a ser tornada pública através do Alvará de 22 de Setembro de 1801» (Idem, 2012, pp. 330-331). Uma vez obtido o empréstimo, as obras de construção foram retomadas sendo o Hospital da Marinha inaugurado em 1 de Novembro de 1806, já com os doentes que haviam estado no Desterro. Em 1809, estavam internados no hospital 233 doentes, admitindo-se existir lugar para 450.

Para aumentar a capacidade de alojamento do hospital e para garantir melhores condições de assistência aos enfermos, a partir de meados do século XIX o edifício conheceu sucessivas remodelações que alteraram os seus espaços interiores e as fachadas e suprimiram o jardim.

«Em 1861, talvez aquando da realização ou preparação de novas obras, foram copiadas várias plantas e alçados originais do Hospital da Marinha (todas ou parte delas da autoria de Xavier Fabri)» (Idem, p. 335). Assim, à falta dos originais, a comparação com as plantas de 1788 permitem perceber a forma como o Hospital Marinha veio a ultrapassar a área pertencente ao edifício jesuíta, do qual aproveitou o portal do piso inferior, paredes, escadas interiores, algumas divisões e corredores.

Em Abril de 2013, o Hospital da Marinha foi desativado e o edifício encontra-se devoluto desde então.

Evolução urbana
O edifício do antigo Colégio de São Francisco Xavier localiza-se na Rua do Paraíso, conhecida no século XVI como Rua Direita de Nossa Senhora do Paraíso por nela se localizar a mencionada Ermida de Nossa Senhora do Paraíso. Fazendo originalmente parte da freguesia de Santo Estevão, a partir de 1569 o terreno onde se implanta passou para a freguesia de Santa Engrácia, que compreendia «uma grande extensão de moradores, que ficavam extramuros» (CASTRO, III, 1763, p.269), até Xabregas. Segundo Luiz da Costa de Barbuda, pároco da freguesia em 1759, «hé tradição ser fundada pella Senhora Infanta Dona Maria, filha do Senhor Rey Dom Manoel, sendo a grande devoção, que tinha com esta famoza Santa, a que junto das portas da Crus, edificasse hua paroquia da invocação de Santa Engracia. [...] Para este efeyto duou a mesma Senhora Infante [...] no anno de 1595 hum meyo corpo de prata dos maes morozamente obrado [...]. Hé também certo que todo o territorio desta freguesia foy desmembrada [sic] da de Santo Estevão de Alfama por huma bula de Sam Pio Quinto» (Lisboa em 1758, 1974, p. 99).

A Rua do Paraíso é uma artéria que, ao longo dos séculos, tem providenciado a ligação do Campo de Santa Clara às antigas Portas da Cruz da muralha, para onde confluíam a Rua das Portas da Cruz (atual Rua dos Remédios), a Calçada do Cascão, a Calçada do Forte e a Rua Nova (atual Rua do Museu da Artilharia). Apesar da dimensão relativamente curta, a Rua do Paraíso apresentava uma elevada importância por fazer, simultaneamente, a ligação do Campo de Santa Clara ao casco antigo de Alfama e à zona mais baixa, junto ao Tejo (Rua do Cais do Carvão, onde se localiza a Estação de Santa Apolónia).

A leitura comparada da cartografia desde meados do século XVIII permite perceber que a zona nas imediações do Campo de Santa Clara encontrava-se consolidada do ponto de vista viário e urbanístico, com excepção da Rua Nova (atual Rua do Museu da Artilharia), aberta na segunda metade de setecentos.

Cronologia
1677-03-07 Jorge Fernandes de Vila Nova morre e deixa à Companhia de Jesus dinheiro para a criação de um colégio sob a evocação de São Francisco Xavier. Esta instituição deveria ser dotada de três escolas: uma elementar para crianças, outra de latinidade para estudantes mais crescidos e outra de Náutica para ensinar a arte de navegar.
1682 Fundação do Colégio de São Francisco Xavier.
1727-06-28 Lançamento da primeira pedra das novas instalações da igreja e do Colégio de São Francisco Xavier.
1755-11-01 Exceto a igreja (à época ainda incompleta), a edificação sofre poucos danos com o terramoto.
1759 O edifício do colégio ficou desocupado com a extinção da Companhia de Jesus, sendo ocupado pelas "Recolhidas, chamadas do Castelo".
1788 Projeto de Manuel Caetano de Sousa para adaptar o edifício do colégio a recolhimento (Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo).
1796-10-29 É criado o Hospital Real da Marinha (também conhecido por "Hospital do Tronco" ou "Hospital Militar da Corte").
1797-07-01 O intendente geral da polícia, Pina Manique, indica ao Secretário de Estado dos Negócios da Marinha (D. Rodrigo de Sousa Coutinho, futuro conde de Linhares), o antigo colégio jesuíta de São Francisco Xavier como o melhor lugar para instalar o futuro Hospital da Marinha.
1797-07-06 D. Rodrigo de Sousa Coutinho oficia a Diogo Inácio de Pina Manique no sentido de instalar noutro local o recolhimento feminino existente no edifício.
1797-07-07 A Real Junta da Fazenda da Marinha recebe ordem para tomar posse do antigo Colégio de São Francisco Xavier.
1797-07-27 Alvará que institui a criação do Hospital da Marinha, tendo-se para o efeito determinado que ficasse nas instalações do anterior Colégio de São Francisco Xavier, sendo o projeto de remodelação da autoria do arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri.
1806-11-01 Abertura do Hospital da Marinha.
1850 | 1869 Obras de ampliação do edifício
1890 Inicia-se o ensino da enfermagem no hospital, oficializado 6 anos mais tarde.
1896 Criação da Escola de Enfermagem da Armada, sediada no Hospital da Marinha.
1930-01-01 | 1939-12-31 Obras de ampliação do hospital, com a criação do mais moderno bloco operatório hospitalar de Lisboa.
1930-01-01 | 1939-12-31 Execução e colocação de um conjunto azulejar com temas alusivos à medicina, da autoria de Eduardo Leite.
1940 É criado no hospital o primeiro serviço de anestesia do país.
1954 Início da construção de um anexo no Hospital da Marinha e criação de diversos serviços auxiliares, laboratórios, farmácia e oficinas.
1956 Obras de ampliação do Hospital da Marinha.
1980 Abertura e uma enfermaria para mulheres e encerramento da Escola de Enfermagem.
1989 Entra em funcionamento no hospital o Centro de Medicina Hiperbárica, único do género no país.
2012-08-16 Decreto-Lei nº 187/2012, do Ministério da Defesa Nacional, cria o Polo de Lisboa do Hospital das Forças Armadas (HFAR) e extingue o Hospital da Marinha, o Hospital Militar Principal, o Hospital Militar de Belém e o Hospital da Força Aérea, sendo as respectivas atribuições e competências transferidas para o Polo de Lisboa do HFAR.
2013-05-17 O Despacho nº 7002/2013, do Ministério da Defesa Nacional, determina a criação do Campus de Saúde Militar, sediado no Lumiar e estabelece um cronograma para o processo de fusão hospitalar. Até 30 de Abril já se tinha procedido ao encerramento da atividade no Hospital da Marinha.

Fontes e Bibliografia
Cartografia

[Enquadramento urbano | Colégio de São Francisco Xavier, 1834].

[Enquadramento urbano | Colégio de São Francisco Xavier, 2015].

FOLQUE, Filipe; - [Carta Topográfica de Lisboa e seus arredores, 1856/1858]. 1:1000. 65 plantas; 92 X 62,5cm, Planta 38 (Setembro 1858).

Monografia

ABREU, Rui Rodrigues de - O Hospital da Marinha: a sua origem e primeiros anos. XVI Colóquio de História Militar. O Serviço de Saúde Militar na Comemoração do 4º Centenário dos Irmãos Hospitaleiros de São. João de Deus. Actas - Volume II. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2007, pp. 825-836.

CAEIRO, Baltazar Matos - Os Conventos de Lisboa. Sacavém: Distri Editora, 1989, p. 124.

CAEIRO, José - História da expulsão da Companhia de Jesus da Província de Portugal (séc. XVIII), Volume 3. Lisboa: Verbo, 1999.

CARREIRA, Adélia Maria Caldas - Lisboa de 1731 a 1833: da desordem à ordem no espaço urbano: Tese de Doutoramento em História da Arte. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 2012.

CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo Terceiro, Parte V. Lisboa: Oficina Patriarcal de Francisco Luis Ameno, 1763.

CORDEIRO, António - Loreto lusitano. Virgem Senhora da Lapa: residencia milagrosa do Real Collegio de Coimbra da Companhia de Jesus. Lisboa: Na Officina de Felipe de Souza Villela, 1719, pp. 161-162.

FERREIRA, João José Brandão - O serviço de saúde militar no princípio do século XXI em Portugal. XVI Colóquio de História Militar. O Serviço de Saúde Militar na Comemoração do 4º Centenário dos Irmãos Hospitaleiros de São. João de Deus. Actas - Volume I, Separata. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2005, pp. 133-219.

FRANCO, António - Synopsis annalium Societatis Jesu in Lusitania ab anno 1540 usque ad annum 1725, Augustae-Videlicorum. 1726.

História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, Tomo II. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1972, pp. 155-160.

LOPES, António - Roteiro Histórico dos jesuítas em Lisboa. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa-Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, 1985, pp. 39-40.

OLIVEIRA, Eduardo Freire de - Elementos para a história do município de Lisboa, 1ª parte, Tomo VII. Lisboa: Typographia Universal, 1894.

PORTUGAL, Fernando; MATOS, Alfredo de - Lisboa em 1758: Memórias Paroquiais de Lisboa. Lisboa: Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1974, p. 309.

RODRIGUES, Francisco - História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal, Tomo terceiro, volume 1. Porto: Livraria Apostulado da Imprensa, 1944, pp. 47-50.

SILVA, Raquel Henriques da - Lisboa Romântica: Urbanismo e Arquitectura. 1777-1784: Tese de Doutoramento em História da Arte. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1997, 2 volumes.

Electrónico

Colégio de São Francisco Xavier / Hospital da Marinha. Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, IPA.00017551.

Periódico

Decreto-Lei nº 187/2012. Diário da República, 1º Série, nº 158. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 16 de Agosto de 2012, pp. 4490-4492.

Despacho nº 7002/2013. Diário da República, 2º Série, nº 104. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 30 de Maio de 2013, p. 17183.

Material Fotográfico
Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada. DSF6208.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada. DSF6206.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada. DSF6204.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada. DSF6213.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada Norte | Arco. DPC_20140924_126.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada Norte | Arco. DPC_20140924_128.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada norte | Arco. DPC_20140924_129.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada. DSF6214.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Antiga portaria do Colégio Jesuita. DPC_20140326_111E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Portaria nova. DPC_20140326_139E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Sala de distribuição 2º piso. DPC_20140326_136E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Capela. DPC_20140326_127E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Antiga igreja. DPC_20140326_006E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Escadaria principal. DPC_20140326_115.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Escadaria principal. DPC_20140326_122.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Corredor do antigo hospital. DPC_20140326_093.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Corredor lateral de acesso à antiga sacristia. DPC_20140326_020.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Piso terreo. DPC_20140326_074E.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Piso terreo. DPC_20140326_071.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Pátio interno. DPC_20140326_025.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Pátio interno. DPC_20140326_032.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2014.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior |. PT/AMLSB/BAR/000217.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior |. PT/AMLSB/LSM/000570.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada Norte. FAN001679.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Arcada. A38123.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Colégio de São Francisco Xavier | Exterior | Fachada sul. PAG000688.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Colégio de São Francisco Xavier | Interior | Dormitório. FAN001808.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Inventariantes
José Manuel Garcia - 2014-05-06
Tiago Borges Lourenço - 2015-05-21

Imagens: 27