Ficha de Casa Religiosa
    
Designação
Convento do Santo Crucifixo

Código
LxConv093

Outras designações
Mosteiro do Crucifixo; Convento do Santo Crucifixo de Lisboa; Convento das Francesinhas; Real Mosteiro das Capuchas Francesas; Convento do Santo Cristo

Morada actual
Calçada da Estrela; Rua das Francesinhas; Jardim Lisboa Antiga

Sumário
Quando, em Junho de 1666, se realizou, por procuração, o casamento de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia com D. Afonso VI, já há mais de um ano se preparava a fundação de um novo convento de Clarissas Capuchinhas em Lisboa. Vindas de um convento de Paris e acompanhando a rainha na sua viagem para Lisboa, em Abril de 1667 as quatro religiosas escolhidas para fundarem o novo cenóbio instalaram-se na ermida temporariamente construída no terreno do futuro convento (já em construção), composto pela área de duas quintas compradas pelo erário público, contíguas ao Mosteiro de São Bento da Saúde.

Coincidindo com a passagem do Santíssimo Sacramento para a nova igreja, apenas em 1674 as religiosas transitam para o edifício definitivo, que poucos danos sofre com o Terramoto de 1755. Extinto em 1890, é ocupado nas duas décadas seguintes pelo Asilo para Educação de Costureiras e Criadas, instalando-se na sua cerca o Parque Sanitário das Francesinhas.

Com a Implantação da República, o edifício é demolido em Maio de 1911, prevendo-se a construção no seu terreno das (nunca concretizadas) novas instalações do Instituto Superior Técnico. Após quase 25 anos vazio, em 1935 é temporariamente ocupado pela "Lisboa Antiga", a reconstituição de um antigo bairro lisboeta para as Festas da Cidade. Uma vez demolida essa efémera construção, o espaço manteve-se desocupado até ser inserido no plano de embelezamento do Palácio da Assembleia Nacional que o transforma num jardim público - o Jardim Lisboa Antiga ou das Francesinhas, inaugurado em 1949.

Caracterização geral
Ordem religiosa
Ordem de Santa Clara. Clarissas Capuchinhas, Obediência ao Núncio.

Jurisdição diocesana a partir de 1739.

Professavam a 1º Regra de Santa Clara.

Género
Feminino

Fundador
D. Maria Francisca Isabel de Sabóia - Iniciativa régia

Data de fundação
1667-03-03

Data de extinção
1890-03-09

Autoria
Mateus do Couto (Sobrinho) - Arquitecto

Tipologia arquitetónica
Arquitetura religiosa\Monástico-conventual

Componentes da Casa Religiosa - 1834
Convento
Claustro
Pátio
Igreja
Cerca de recreio e produção

Caracterização actual
Situação
Convento - Demolido(a)
Igreja - Demolido(a)
Cerca - Parcialmente urbanizada

Descrição
Enquadramento histórico
Tendencialmente é possível percecionar três motivações que concorreram para a [...] vinda para Portugal [de ordens religiosas estrangeiras]: fuga de perseguições religiosas movidas nos países de origem, encontrando em Portugal um refúgio seguro; mera fundação de novas casas religiosas, maioritariamente hospícios que serviriam de casas de acolhimento temporário e passagem para as missões ultramarinas; acompanhamento de rainhas estrangeiras em Lisboa casam com monarcas portugueses e nela fundam cenóbios de patrocínio e proteção régia (LOURENÇO e SILVA, 2015, p. 41). Apesar de esta última motivação ser a mais rara, foi a que primeiro ocorreu. Em 1282, na embaixada que acompanhou a rainha Isabel de Aragão para Portugal aquando do seu casamento com D. Dinis, vieram dois religiosos, Reverendo Padre Fr. Pedro Serra [...] professo da Religião dos Mercenarios [confessor da rainha] & residente no convento de Barcelos de Santa Eulalia, que ha a cabeça desta Sagrada Religião. [...] O Reverendo Senhor Mestre Geral lhes deu licença para fundar conventos naquelle Reyno, & assistir com a Infanta todo aquelle tempo que fosse sua vontade (BRANDÃO, 1650, pp. 66-67).

O segundo caso ocorre no terceiro quartel de seiscentos, por ocasião do casamento de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia com D. Afonso VI (1666), tendo a ideia da fundação do convento sido amadurecida e tratada no decorrer dos preparativos do casamento. De acordo com José Barbosa, cronista das religiosas capuchinhas francesas em Lisboa, a intenção de edificar o convento deve-se a Isabel de Vandôme, mãe da futura rainha de Portugal. Segundo Álvaro Tição, o documento mais recuado relativo à fundação do Convento do Santo Crucifixo é datado de 13 de Maio de 1665, tratando-se da apreciação do Conselho de Estado do pedido a si endereçado pelo duque de Vandôme (avô da futura rainha) solicitando autorização para que esta pudesse trazer no seu séquito, para além de algumas criadas e um secretário, quatro freiras capuchinhas (TIÇÃO, I, 2007, p. 21). Alguns dos documentos que compõem o códice 8950 da Biblioteca Nacional permitem traçar os episódios seguintes, sabendo-se através deles que em Setembro desse ano em Roma se tratava das provisões para a concretização da fundação, encontrando-se já escolhidas as religiosas que deveriam acompanhar a futura rainha [Maria de Santo Aleixo (primeira madre superiora do convento), Isabel de São Paulo, Antónia de Santa Cruz, Amata de Santa Clara, Honorata de Jezus e Magdalena de São Francisco - apenas quatro viriam] (TIÇÃO, II, 2007, pp. 13-14).

Em Junho de 1666 o casamento é celebrado em La Rochelle por procuração, iniciando-se pouco depois a viagem marítima que traria a Portugal a rainha e restante séquito. Chegadas a Lisboa em Agosto, as quatro religiosas francesas recolheram-se no Convento de Nossa Senhora da Quietação, de religiosas flamengas.

De seguida iniciam-se, junto do Cabido da Sé, as diligências necessárias para a efetivação da fundação da nova casa religiosa, para tal se escolhendo um terreno junto ao Mosteiro de São Bento da Saúde, o que obrigou à compra de duas quintas às expensas do erário régio, em Fevereiro de 1667. Em carta assinada a 15 de Outubro de 1666 e endereçada ao Cabido da Sé, o rei refere que tem a Rainha devoção de principiar com ellas [as quatro Religiosas da Ordem de S. Francisco de um Convento de Paris] nesta Corte hum convento da mesma Regra, para o que tenho concedido licença, pelo que me toca. Tem-se escolhido hum sitio, que parece conveniente, defronte do Mosteiro de S. Bento da Saude, e por estarem as ditas Religiosas desacommodadas no Convento das Flamengas, se determina fazerse com toda a brevidade, que convem, para passagem logo ao novo sitio (transcrita por BARBOSA, 1748, pp. 67-68). Segundo o cronista do convento, demarcouse o sitio conforme a Real intensão de Sua Magestade, e como nelle havia fazendas, foy preciso, que se contratasse a venda. A primeira Quinta, que se comprou, foy a de D. Maria Magdalena Freire, que a vendeo por hum conto e seiscentos mil reis em 20 de Fevereiro de 1667, e como era foreira ás Religiosas da Esperança em dous mil e oitocentos reis, se lhe remio, e extinguio o foro por trezentos e setenta e oito mil reis por escritura celebrada em cinco de Junho de 1667, pelo Tabelliao Domingos de Barros. Era necessaria mais outra Quinta de Luiza Dias, viuva de Francisco Pires de Carvalho, a qual se comprou por seiscentos e cincoenta mil reis em 26 de Fevereiro de 1667; e como pagava foro ás Religiosa de S. Brigida [...], se lhe comprou, remio, e extinguio o foro, que era de oito mil reis, pela quantia de quatro centos mil reis por escritura celebrada em trinta de Junho de ... [1667(?)] pelo Tabellião Domingos de Barros. [...] Mostrou o tempo, que não bastavão estas duas fazendas para a fabrica delineada, e se comprou huma Quinta, que tinha naquelle sitio o Conde de Villa Verde D. Pedro Antonio de Noronha [...] a qual Quinta comprou a Rainha Padroeira por dous contos e setecentos mil reis em 18 de Março de 1683 [...] e da parte desta Quinta se fabricou o Hospicio dos Religiosos Capuchinho Francezes, em que assistia o Confessor das Religiosas, e os seus Companheiros.

Compradas as fazendas, que fazia precisas a demarcação do novo edifício, [pelo que, a 2 de Março de 1667,] escreveo El-Rey segunda vez ao Cabido huma Carta, que constará da licença Capitular, [...] [na qual o rei insta a que passada] a licença, [...] convem, para as ditas quatro Religiosas, que atégora estão mal accomodadas, entrarem no dito Convento, cujo edificio está já em estado de o poderem fazer (Idem, pp. 69-72). A construção do novo edifício havia, portanto, já sido iniciada.

Não obstante a preocupação manifestada pelo rei em Outubro de 1666, as freiras só deixaram o Convento da Quietação em Março do ano seguinte, instalando-se temporariamente no Convento da Esperança, onde ficaram por um período de cerca de mês e meio. Na segunda feira [...], dia de Nossa Senhora dos Prazeres dezoito de Abril de 1667 vierão à Portaria da Esperança por insinuação da Rainha Padroeira as mayores, e mais principaes Senhoras da Corte, e levarão as Fundadoras nos seus coches, e as conduzirão á Igreja do Convento de S. Bento da Saude, aonde estava esperando o Illustrissimo Cabido em corpo de Communidade para as acompanhar processionalmente, e lhes dar a posse da sua nova Casa. A procissão foy solemnissima, porque hia nella sacramentado o Esposo daquelas exemplarissimas Virgens, a que fazia o devido obsequio o melhor da Corte Portugueza. [...] Chegando a procissão ao pequeno Oratorio, ou Ermida, que por então lhe servio de Igreja, se depositou o Senhor no Sacrario, e as Fundadoras se recolherão na sua Clausura (Idem, pp. 75-76). Por esta altura encontrava-se concluída apenas uma parte dos dormitórios (TIÇÃO, II, 2007, p. 31). Segundo José de Barbosa, a empreitada da construção do convento e respectiva igreja prosseguiu, sendo seu arquitecto Mateus do Couto (BARBOSA, 1748, p. 76). Apenas em 1674 as religiosas transitaram para o edifício definitivo, coincidindo com a passagem do Santíssimo Sacramento para a nova igreja, cuja capela-mor ainda não se encontrava terminada em 1712 (CARVALHO, III, 1763, p. 515). Por esse motivo, nem a rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (falecida em 1683), nem a sua filha, infanta Dona Isabel (falecida sete anos depois) puderam ser sepultada na capela-mor do templo.

De fundação e dotação régia, no decorrer da sua primeira década o Convento do Santo Crucifixo assistiu à profissão de um total de uma dezena de freiras. As Capuchinhas Francesas receberam de D. Pedro II, rendas anuais para a sua sustentação, primeiro no ano de 1668, depois em 1703, e finalmente em 1709, já com D. João V [...], tendo este monarca aumentado a esmola real em mais 100.000 réis anuais (TIÇÃO,I, 2007, p. 24).

Contrariamente ao vizinho Convento de Santa Brígida, o Convento do Santo Crucifixo pouco sofre com o Terramoto de 1 de Novembro de 1755. Segundo o livro de contas da sacristia da casa religiosa, transcrito por Álvaro Tição na sua tese de mestrado, não existem despesas de maior com conservação ou reparação do edifício (TIÇÃO, II, 2007, pp. 33-36).

À semelhança das restantes casas religiosas femininas, a partir de 1833 o Convento do Santo Crucifixo ficou impedido de receber noviças (Decreto de 5 de Agosto de 1833), tendo sido oficialmente extinto a 9 de Março de 1890, data da morte de Henriqueta Maria da Conceição (ANTT, Inventário de extinção do Convento do Santo Crucifixo de Lisboa processo de extinção, f. 0313-0316). A 25 de Abril seguinte parte do edifício é concedido provisoriamente ao Asilo para Educação de Costureiras e Criadas de Servir (processo de extinção fls. 481-483), assinando-se a 12 de Dezembro do mesmo ano um termo de entrega, temporariamente, da Egreja, respectivos paramentos, alfayas, e mais objectos do Culto, do supprimido Real Convento de Sancto Crucifixo (Francezinhas) ao Asylo para educação de Costureiras e Creadas (ANTT, Inventário de extinção do Convento do Santo Crucifixo das Francesinhas de Lisboa, f. 0219-0221).

No início de 1893 a superintendência dos serviços de desinfecção, reconhecendo a urgencia de se augmentar os meios de defesa d'esta cidade [de Lisboa], na previsão d'uma epidemia proseguiu os seus estudos para a escola de lugar apropriado ao estabelecimento do posto de desinfecção (processo de extinção, fl.46). Numa primeira fase, a escolha do local recaiu na cêrca do convento de Stª Joanna, a Sta. Martha, pertencente aos proprios nacionaes [visto] corresponde[r], ainda que um pouco afastada do centro da densidade da população às principais condições exigidas para o referido posto (ANTT, Idem, f. 0046), nomeadamente isolamento, extensão do terreno, boas comunicações e relativo baixo custo de instalação. No entanto, o superintendente dos serviços de desinfecção reconheceria que a cerca de baixo do supprimido convento das Francezinhas correspond[ia] melhor do que a do Convento de Santa Joanna [...] ás condições exigidas para o estabelecimento do posto de desinfecção (ANTT, Idem, f. 0044), pelo que a 15 de Junho seguinte a Direcção Geral dos Próprios Nacionais autoriza a cedência do terreno necessário para a instalação do referido posto (ANTT, Idem), tornando-se parte do futuro Parque Sanitário das Francesinhas, junto do qual haveria igualmente de ser construído um posto de polícia.

As precárias condições do edifício do antigo convento, já descritas e reportadas no final do século XIX (ainda enquanto convento), mantêm-se mesmo após o seu uso como estabelecimento de ensino da associação, em especial no tecto da igreja que no decorrer da década de 1890 apresentava graves problemas de infiltrações (TIÇÃO, I, 2007, p. 28). Esta situação agravou-se com o terramoto de 23 de Abril de 1909 que afectou de tal forma a Igreja das Francesinhas, que esta foi encerrada ao culto por ameaçar ruína, em consequência dos danos sofridos [...] [tendo] um telhado cheg[ado] mesmo a cair (Idem).

Com a Implantação da República, o edifício é demolido em Maio de 1911. O terreno do recém-demolido edifício bem como os [...] adjacentes onde [...] est[ava] instalado o Posto de Desinfecção [...] [, foi cedido ao Instituto Superior Técnico (IST), sendo a respetiva área] destinada para as [suas] novas instalações (Decreto de 14 de Julho de 1911, Diário do Governo nº 163, p. 2981, artº 84º). Apesar de o espaço ter ficado vazio, o IST nunca o utilizou, tendo preferido construir as suas novas instalações à Alameda, inauguradas em 1936. Vazio durante cerca de um quarto de século, o terreno foi ocupado pela Lisboa Antiga, a reconstituição de um antigo bairro lisboeta idealizada por Gustavo Matos Sequeira e inaugurada a 4 de Junho de 1935 no contexto das Festas da Cidade. Uma vez demolida essa efémera construção, o espaço manteve-se desocupado até ser inserido no plano de embelezamento da zona de proteção do Palácio da Assembleia Nacional que, no decorrer da década de 1940, se traduziu no arranjo da envolvente do edifício, por via da construção da monumental escadaria e da execução de um jardim no espaço onde durante quase 250 se havia implantado o Convento do Santo Crucifixo, no qual o seu arquiteto, Luís Cristino da Silva, previu (não o concretizando) a reedificação do Arco de São Bento, demolido em 1938. O Jardim da Lisboa Antiga ou das Francesinhas foi inaugurado em 1949, ocupando o espaço desde então.

No início da década de 1990 o Posto Sanitário das Francesinhas desocupa o terreno da antiga cerca que, por permuta, passa a ser posse do Instituto Superior de Economia e Gestão que nele constrói dois edifícios (VALÉRIO, 2011, p.133).

Evolução urbana
O Convento do Santo Crucifixo localizava-se num estratégico local de confluência da Rua de São Bento com a Calçada da Estrela, próximo dos Poiais de São Bento/Poço dos Negros, tendo para o efeito sido adquiridas três quintas (duas em 1667 com dinheiro do erário régio e outra em 1683 pela rainha). Esta zona, apesar de não ser próxima do centro da cidade, não era totalmente periférica, sendo, já no início da segunda metade de seiscentos, uma das áreas da cidade com maior implantação de casas religiosas (Nossa Senhora da Esperança, 1527; Santa Brígida ou das Inglesinhas, c. 1600; São Bento da Saúde, c. 1615).

A Planta da Cidade de Lisboa na margem do Rio Tejo: desde o Bairro Alto até Santo Amaro (c. 1598), possivelmente a primeira representando a área onde o Convento do Santo Crucifixo se viria a implementar cerca de três quartos de século depois, permite perceber a existência de uma zona parcamente consolidada, existindo já a Calçada da Estrela e parte do Caminho Novo (actual Rua das Francesinhas). Toda a zona entre o Convento da Esperança e a Estrela possuía, assim, um reduzido conjunto de construções (de entre as quais se destacava o Convento de Santa Brígida), o que naturalmente a tornava numa área interessante para a implantação de um novo convento. Duas plantas topográficas da segunda metade do século XVIII (Livro das Plantas das Freguesias de Lisboa de c. 1770 e a Planta Topographica de Lisboa de 1780) permitem perceber que o Convento do Santo Crucifixo ocupava uma pequena porção na parte nordeste de um grande quarteirão formado pelo Caminho Novo, Calçada da Estrela, Calçada das Inglezas/Rua da Bella Vista (correspondendo sensivelmente à actual Rua do Quelhas) e Travessa dos Navegantes (actual Rua da Bela Vista à Lapa).

As principais alterações na área em análise principiam na segunda metade de novecentos, com a urbanização de grande parte do referido quarteirão e consequente construção do Bairro Brandão (compreendendo as actuais Rua Miguel Lupi, Travessa Miguel Lupi, Rua Almeida Brandão e Rua Borges Carneiro). Enquanto manteve a actividade religiosa os terrenos do convento não sofreram qualquer alteração, o mesmo não acontecendo após a sua extinção em 1890, visto que, pouco depois, parte da cerca foi dispensada para a construção de um Posto de Desinfecção. No início da década de 1890, a Câmara Municipal de Lisboa procede ao alargamento e subida da cota do Caminho Novo (então designado Rua João das Regras), que fez com que o aterro [tenha subido] á altura de mais de metade da porta do convento (ANTT, Inventário de extinção..., f. 0069).

Pouco depois da Implantação da República, a tomada efectiva do antigo convento por parte do Estado (por via da expulsão do Asilo para a Educação das Criadas e Costureiras, nele instalado desde 1890) aliada às precárias condições de conservação do espaço, levou a que em Maio de 1911 fosse decidida a demolição do edifício, tendo os trabalho sido iniciados no mesmo mês.

O terreno do recém-demolido edifício bem como os terrenos adjacentes onde [...] est[ava] instalado o Posto de Desinfecção [...] [, foi cedido ao Instituto Superior Técnico (IST), sendo a respetiva área] destinada para as [suas] novas instalações (Decreto de 14 de Julho de 1911, Diário de Governo nº 163, p. 2981, artº 84º). Apesar de ter ficado vazio, o IST nunca utilizou o espaço, que cerca de um quarto de século depois foi ocupado pela Lisboa Antiga, a reconstituição de um antigo bairro lisboeta idealizada por Gustavo Matos Sequeira e inaugurada a 4 de Junho de 1935 no contexto das Festas da Cidade. Uma vez demolida essa efémera construção, o espaço manteve-se desocupado até ser inserido no plano de embelezamento da zona de proteção do Palácio da Assembleia Nacional que, no decorrer da década de 1940, se traduziu no arranjo da envolvente do edifício, por via da construção da monumental escadaria e da execução de um jardim no terreno onde se havia implantado o Convento do Santo Crucifixo, no qual o seu arquiteto, Luís Cristino da Silva, previu (não o concretizando) reedificar o Arco de São Bento, demolido em 1938. O Jardim da Lisboa Antiga ou das Francesinhas foi inaugurado em 1949, ocupando o espaço desde então.

No início da década de 1990 o Posto Sanitário das Francesinhas desocupa o terreno da antiga cerca que, por permuta, passa a ser posse do Instituto Superior de Economia e Gestão que nele constrói dois edifícios (VALÉRIO, 2011, p. 133).

Caracterização arquitectónica
Aliado ao facto de o Convento do Santo Crucifixo ter sido demolido em 1911, a quase total inexistência de reproduções fotográficas do mesmo obriga ao recurso a antigas descrições do edifício para um melhor entendimento das suas características arquitectónicas e artísticas.

A sua primeira descrição será a que consta do tomo II da "História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa", datada da primeira década do século XVIII. Começa por referir a existência, na igreja, "de duas entradas, cousa que nam he tam commua nas igrejas das Religiosas. A primeyra fica fronteyra à capella mor, e pera esta entrada se sobe da rua por huma escada de pedra muyto boa, de dous lanços que vam parar em hum taboleyro quadrado, e deste taboleyro antes d'entrar pella porta da igreja fica hum arco de pedraria, que terá pera dentro sinco palmos de vam e dentro deste arco tem lugar a porta da igreja, com grandesa competente. E sobre a porta se ve o frontispicio do portal, com suas quartellas e alguns revirados da mesma pedra, e se remata com hum paynel de pedra com suas figuras de meyo relevo, que reprezentam a Sam Francisco dando a regra a Santa Clara. E entrando já pella porta da igreja começa o coro das Religiosas, que he de abobeda, e da porta até o arco de pedraria em que se termina o coro que pouco mays ou menos terá sessenta palmos de vam no comprimento e sincoenta em largura, ficando debayxo do coro a cada lado huma capella que terá quinze ou dezaseys palmos de fundo, com seo retabolozinho dourado e hum paynel da Payxam do Senhor, e os lados destas duas capellas cobre hum muy vistozo azolejo, e sobre elle corre sua simalha de pedra, que vay sambrar na que faz arco que entra pero o corpo da igreja por cima do qual fica a frontaria do coro.

E passando debayxo do coro pera o corpo da igreja, passemos a dar conta de suas capellas, e começando pella capella mor pera a qual dam entrada dous pilares de pedra bem lavradas com seos capiteis. E estes pilares sustentam o arco que he tambem lavrado com primor e sobre elle assenta hum nicho grande com columnas de talha dourada, e dentro do nicho se deyxa ver a fermosa imagem de um Crucifixo, em estatura natural de hum homem, e ao pé da cruz fazem assistência à sagrada imagem do Senhor, a de sua Mãy Sanctissima e do Discipulo amado e da penitente Magdalena. Esta imagem do Sancto Crucifixo dá o titulo ao mosteyro, que he o padroeyro da casa debayxo de cuja protecçam vivem as Religiosas, que à capella mor dam o titulo das Chagas de Christo. O tecto della he todo de pedraria com triangulos de marmore vermelho, em forma que todos buscam com suas pontas huma rosa que fica no meyo, vermelha, que inclue dentro huma branca, mays pequena, e dentro dos triangulos tem huns diamantes de marmores pretos. Nos dous lados da capella há duas janelas de cada parte, as quaes guarnessem à roda varias almofadas de pedra negra. E logo por cima destas janellas, em boa distancia, se ve huma cimalha de marmore branco com o frizo vermelho à roda, em forma que vem a sambrar com os pilares da mesma capella. Por bayxo destas dittas quatro janelas lhe correspondem quatro portas, duas em cada lado, de bom tamanho, com suas molduras que lhe servem de ornato. Na ditta capella mor hade haver dous tumulos [...] [da Rainha Maria Francisca de Sabóia e de sua filha, Princesa Dona Isabel, que] ainda nam estam de todo acabados, com nem tambem está feyto o retabolo e tribuna que sem duvida huma e outra cousa nam deyxaria de ser obra proporcionada a toda a outra da igreja do convento.

[...] [As quatro capelas do corpo da igreja] foram seos arcos de pedraria bem lavrada, com seos trossos sobre o arco da capella, e em cada hum destes retabolos tem lugar huma peanha em que assenta a imagem a que o altar he dedicado. E às dittas capellas correspondem pello corpo da igreja humas grades de ébano retrocidas, muy lustrosas, entre as quaes ha pilares de marmore amarelo com alguns embotidos, e estas grades correm pello corpo da igreja com bastante distancia das capellas, e o pavimento interposto entre o degrao em que assentam as grades e as capellas he obrado com galantaria.

[...] Tem a igreja em altura a competente, [e] hum pulpito de cada parte com suas grades tambem de ébano, que os fazem muy ayrosos. [...] Sobre a cimalha real se começa a levantar o tecto da igreja com huma singular pintura de ovados e quadrados que guarnecem várias quartelas e revirados, ramos, figuras e flores com ouro. No meyo do tecto ha hum grande paynel e nelle huma fermosa cruz, e por todo o tecto diversos payneis com nobres passos dos sanctos fundadores, animados com letras muy convenientes e a proposito.(História dos Mosteiros, p.462-465). Sobre a sacristia, o autor do texto refere ter um "vam [...] muy capaz e mayor do que se costuma ver nas sancristisa dos conventos de Religiosas; he a casa muyto clara e alegre, e pera o ser conduz muyto a altura do seo tecto, que he de estuque, e como nam tem pintura alguma fica a casa mays clara. Em hum dos lados della tem lugar os cayxões que assim na madeyra de que constam, que he pao sancto, como no primor da obra em que se esmeram os artifices, que os fizeram, he obra muy perfeita. [...] Defronte dos cayxões tem lugar o lavatorio de pedra bem lavrado. Fora daquelle lanço em que estam os cayxões se vê nas paredes da casa, em altura competente, muyto bom azolejo" (História dos Mosteiros..., II, 1972, pp. 465-466).

Relativamente aos demais espaços conventuais, refere que "entre as partes principaes deste mosteyro tem o primeyro lugar o seo coro, cuja grandesa e capacidade nam só he sufficiente mas muyto mayor da que requere o numero das Religiosas, porque nem o seo instituto permitte mays que trinta e tres nem o rigor excessivo delle convida a muytas pera abraçarem a mesma vida, e assim sendo setenta as cadeyras de que consta o coro, ficam mays de a metade dellas dezocupadas. He a materias dellas bordo, mas lavradas cuidadosamente, de talha, e da mesma madeyra sam os encostos por cima dos quaes se vem as paredes ornadas de payneis que representam a vida de N. Senhora, com molduras de talha dourada, e o que da parede nam cobre a pintura reveste finissimo azolejo.As janelas sam tambem guarnecidas de talha, e todas tem sua cortinas. No meyo do coro tem lugar huma estante de pao preto, que sustentam humas sereyas do mesmo pao.

[...] Diante da grade do coro se segue pera fora huma sacada de pedraria, que terá de largo sinco palmos, suspendida em huns dentilhões de pedra, e na extremidade da sacada correm humas grandes d'ébano. Diz muyto bem com a obra deste coro o tecto delle, aggradavelmente pintado. O ante coro he tambem huma fermosa casa na qual há duas capellas, huma de Christo crucificado outra da Senhora da Conceyçam, ambas com grande asseyo e perfeyçam, e esta se vê em todo o ante coro (Idem, pp. 467-468).

Alude igualmente aos dois dormitórios, "bastante grandes e muyto alegres, com cellas muy sufficientes. E no fim de hum destes dormitorios está a entrada da casa que serve d'enfermaria, à qual he vizinha huma que serve de dispensa e outra de lavatorio das mãos. Tem hum refeytorio pera as convalescentes, com huma casa proxima, em que se recolhem as doentes. Tem mays huma devota capella com invocaçam de Nossa Senhora da Saude, na qual se diz missa às enfermas quando se nam podem levantar, e pera isso tem as cellas dispostas em forma que todas da cama em que estam a podem ouvir.

Depoys das cellas se segue hum corredor com porta pera o claustro e pera a cerca, pera divertimento das doentes. E as enfermas que andam de pé tem pera sua mayor commodidade huma casa grande e nella huma capella em que todos os dias se lhe diz missa e aqui commungam e falam ao medico, porque na cella nam se permitte entrar o medico, se nam quando as Religiosas estam sangradas ou impossibilitadas pera sairem della.

Os claustro do convento tem grandesa bastante com seos pilares e arcos de pedraria, e por cima tem varandas com suas grades de ferro, e assim nos lanços de bayxo como nas varandas que vam por cima tem as cruzes da Via Sacra, que começa no capitulo e acaba no coro, e se corre em communidade todas as sestas feyras da Quaresma, com cruz alçada, e as particulares todos os dias do anno. No claustro de bayxo estam todas as portas das officinas, roda, locutorio, sancristia, que he hum quarto de tres cazas em que se guardam os ornamentos da igreja, pera o que tem grandes gavetas e tambem muytos almarios, em que se conservam os ramalhetes, outros pera cheyros e reliquiasm de que o mosteyro está muyto bem provido. Depoys do quarto que serve peras as cousas da sancristia se segue o noviciado, todo apaynelado de muyto bons quadros, com huma devota capella dedicada a Sancta Catherina de Bolonha, com huma fermosa e grande imagem sua, de vulto.

A esta casa se segue a rouparia, que tambem he casa de lavor, aonde todas as Religiosas trabalham em utilidade commun, e em quanto nella assistem, de manhã e de tarde, se resa o officio de N. Senhora e se lê liçam spiritual, e o mays tempo se passa em cilencio. Diante desta casa há outra dedicada pera livraria de livros spirituaes. Seguese outra que foy o primeyro coro, aonde está hoje o presepio, com tam perfeytas imagens que parecem vivas. Seguese hum corredor e depoy[s] a casa do lavatorio commum e logo o refeytorio, ornado de bons payneis que ocupam todas as paredes, e entre elles he muy louvado hum do banquete que o Senhor deo no deserto às turbas, o segundo da ultima cea do Senhor, o terceyro do Lavatorio dos pés, o quarto do Juizo Universal. Entre as tres janelas que caem pera a cerca há hum de Sancta Clara, outro de Sancta Engracia, outro da fugida do Minino Jesus com sua Mãy Sanctissima e Sam Jozeph, pera o Egipto.

Ao refeytorio fica proximo a cosinha, toda rodeada de mezas de pedra, e o pavimento lageado tambem de pedra com huma pia pera lavarem a louça. E com ser grande tem juntas tres pera despejos e outra pera lenha.

Seguese outro refeytorio que chamam das Fracas, e serve pera as que o andam tanto, do continuo jejum que he necessario dispensar com ellas pera nam seguirem a Communidade, e em quanto a debilidade as obriga vam comer àquella casa, seguindo em tudo mays a Communidade. E o tempo que se lhe[s] concede pera refazer a fraqueza he de ordinario quinze dias, ou quando se vê ser a necessidade mayor hum mez, Proxima ao refeytorio das Fracas tem luga huma casa em que se recolhem as cousas que servem as dittas enfermas, e pera recolher os despejos do refeytorio.

Mays adiante há outra casa grande, com seys tanques de pedraria e hum de mayor grandeza, que recebe a água que reparte pellos outros mays pequenos e estes tanques servem pera lavagem da roupa e habitos das Religiosas. E assim nesta casa como na cosinha e emfermaria há porta pera a cerca e por bayxo das dittas officinas há muytas e grandes abobedas, que podem ter alguma serventia e dar commodidade ao mosteyro (Idem, pp. 468-470).

Cinco anos depois, no terceiro tomo da Corographia Portuguesa, António Carvalho Costa alude brevemente ao edifício, numa descrição onde se destaca o facto de considerar "o Convento [...] muyto grande,& espaçoso, [com] tres dormitorios, o mayor com dobradas cellas" (COSTA, tomo III, 1712, p. 515) e a menção a que nem capela-mor nem os claustros se encontrarem à época concluídos.

Em 1748, José Barbosa, cronista do Convento do Santo Crucifixo faz também uma descrição do edifício (BARBOSA, 1748, pp. 76-82).

Na década de 1830, Luiz Gonzaga Pereira faz uma descrição sumária do edifício referindo que a planta da igreja "pode acomodar 600 fiéis [...] possu[indo] 5 capellas com a primaria, onde se achão collocadas as imagens de seos Padroeiros e 4 lateraes muito sublimes [...]. Toda a igreja he ornada de quadros, collocados na parte superior, em que reprezentão objectos divinos, e pintados talvez por Bento Coelho da Silveira [...]. O templo do Sancto Crucifixo he hum dos muito dignos de consideração; a sua planta hé das milhores, entre as sublimes, e seo alçado lateral he sufrivel, e a porta do prospecto que olha para o sul he dos objectos antigos que merece estimação; o convento, cerca, officinas, são de muito valor" (PEREIRA, 1927, p. 273-275). Alude igualmente à "famoza imagem do Santo Christo [...] obra de grande consideração, tanto pelo Santo Misterio que reprezenta, como bella espreção com que está morto na cruz; o artista que exerceo a sua arte neste santo serviço merecia grande conceito aos inteligentes; todas as outras imagens são muito antigas, mais muito vezitadas dos fieis devotos" (Idem, p. 275).

Uma das últimas descrições sobre o edifício do Convento do Santo Crucifixo é providenciada pelo seu inventário de extinção, elaborado em 1890. Este inventário faz uma muito completa descrição dos espaços conventuais, descrevendo a igreja como um espaço com "entrada principal pelo Caminho Novo por uma só porta (embebida n'um arco da cantaria e [...] encimanda por um baixo-relevo em pedra lioz) subindo-se oito degráos para o vestíbulo. [Era] o pavimento d'este de cantaria preta e branca.

Encontra[va]m-se no vestibulo - duas capellas fronteiras fechadas com grades de ferro, tendo tambem uma d'ellas portas de vidraça. Em cada um dos respectivos altares v[ia]-se um quadro a oleo - Christo no Caminho de Golgotha = e Christo açoutado = ambos de má execução. Cada uma das Capellas t[inha] duas pequenas casas lateraes para arrecadação.

Segu[ia-se] o corpo da Egreja com uma porta, á direita, para a Calçada da Estrella. Tem, por lado, duas Capellas com camarim, sendo três de riquissima talha dourada sobre madeira de castanho, e a quarta em estylo Romano (ordem Corinthia) de pouco valor. [Er]am revestidas as paredes lateraes de cantaria, ornadas, na parte superior a terço d'altura, com tres grandes quadros por banda, havendo mais tres, ao fundo, por cima do Côro da Musica. E tres quadros pintados em tela, tendo magnificas molduras de talha dourada, representam-os d'um lado = A Vida de Santa Clara = e os do outro = A de Sam Francisco d'Assis =; as de tôpo (parede divisoria do Coro) = A Trindade, e os dois Sanctos da invocação dita = ao centro, e aos lados = A Morte de Sancta Clara = e A Morte de Sam Francisco = O tecto e[ra] de abobada com allegorias, e dois quadros a oleo, tudo em ruina pelas aguas pluviaes. O pavimento - de mosaico de pedra branca e preta, de diversos desenhos, bastante damnificado. T[inha] uma bella têa d'ebano intercalada de pedestaes de mosaico de côres, sendo os balaustres do côro da musica e dos pulpitos tambem d'ebano e do mesmo desenho.

O fecho da Capella-Mór (que segue) representa[va] as Armas do Convento. Junto ás impostas exist[ia]m dois nichos cavados na parede, e guarnecidos de talha dourada, egual no estylo e execução á dos tres altares acima descriptos.

Capella-Mór. Paredes e tecto de cantaria encarnada e branca em tabellas e molduras. Pavimento do mesmo estylo em cantaria preta e branca. Retabulo, coroamento, altar e camarim [er]am de madeira, armados com quatro columnas fingindo pedra e os capiteis corintheios de talha dourada. Encima[va] o entablamento as Armas de Sam Francisco, sustentadas por dois Cherubins, e dois Anjos junto das mesmas, sendo todo este emblema de talha de boa esculptura.

Sachristia. Fica[va] do lado esquerdo entrando pela porta principal e receb[ia] luz d'uma janella que deita[va] para o Caminho Novo. Há[via] n'ella um arcaz de páu santo com quinze gavetas tendo ferragens amarellas, e no espaldar dois espelhos, e dois quadros a oleo em téla, e um nicho ao centro. De cada um dos lados d'este arcaz esta[va] um armario da mesma madeira, e d'espinheiro cada um com quatro meias portas" (ANTT, Inventário de extinção do Convento do Santo Crucifixo das Francesinhas de Lisboa, f. 0455-4057).

O Côro encontrava-se "sobre o vestibulo da Egreja. Esta[vam] armadas as paredes, a meia altura, de quadros (14) revestidos de talha dourada, sendo a outra meia altura forrada de azulejos. T[inha] dois vergalhoes com seu tirante cada um sustentando a fileira. Os alizares e vergas das portas e janellas (5) [er]am forradas de talha egual á dos quadros. [...]

Na parede que deita[va] para a Egreja, sobre a grade, exist[ia] um grande vão donde está um Sacrario decorado com um baixo-relevo na porta, e com duas figuras em vulto; o (?) da base com ornamentação de talha dourada bem executada.

Em frente da porta da entrada acha[va]-se um altar com retabulo, frontal e galeria de talha dourada - tendo um quadro a oleo em tela, com vidro, representando Mater Dolorosa.

Aos lados d'esse altar, sobre estrados de tres degráos, esta[vam] depositados dois caixões contendo os corpos da Princeza D. Maria Francisca Izabel de Saboya, e de sua filha D. Luiza Izabel de Saboya.

No cimo das entradas para a bancada, que se comp[unha] de setenta cadeiras com espaldar corrido de madeira de carvalho, esta[vam] collocadas duas maquinetas de talha dourada, tendo superiormente - uma A Virgem e dois Anjos - e a outra - Um Bispo e dois Anjos - em relevo bem executado.

Entrando-se n'este Côro, ao lado esquerdo, exist[ia] outro altar com retabulo e frontal de talha dourada, enconstado á parede que olha para a Egreja.

À saida d'este mesmo côro tambem á esquerda, encontra[va]-se uma porta que conduz por uma escadaria de madeira com trinta e um degráos, a um terceiro pavimento, onde esta[va] a torre dos Sinos, denominados - um "D. Pedro", e outro "D. Maria" " (ANTT, Idem, f. 0458-0460).

O ante-coro encontrava-se "situado no segundo pavimento. E[ra] quadrado. Tecto de tumba com um vergalhão e dois tirantes aguentando a fileira. Paredes, a terço, forradas d'azulejos. T[inha] uma porta, fronteira ás duas janellas que olha[va]m para o Oeste, a qual fica no Corredor, onde, do mesmo lado exist[ia] uma correnteza de cellas, e do opposto a galeria do Claustro.

V[iam]-se no ante-côro dois arcos com impostas doricas em frente um do outro. Em um d'elles esta[va] mettido um altar guarnecido interiormente de talha dourada tendo ao fundo um quadro a oleo, representando Sancta Clara coroada por um Anjos, e o Espirito Sancto = A banquetta d'este altar e[ra] tambem de talha dourada. Pelo outro arco, onde começa[va] uma escada de pedra com oito degráos, [ia]-se á porta do Côro (ANTT, Idem, f. 0460-0461).

O clausto era constituído por "dois pavimentos e telhados sustentados por vinte arcadas de ordem dórico, em volta semi-circular, e às arcadas superiores por volta abatida. Ha[via], no centro, um poço de agua natural ladeado de arvores de fructo e de flôres.

De baixo das arcadas do primeiro pavimento acha[va]m-se do lado do Norte duas Capellas ornadas de conchas e cácos com portas de madeira pintadas interiormente com ornatos e flôres coloridas; - outra capella com altar, no fundo do qual se v[ia] um quadro a oleo representado = Sancto Antonio = tendo comunicação para a escada que leva[va] ao segundo pavimento; Casa da Roda dando saída para a Portaria e o Pateo das Francezinhas; e a escada de cantaria para o pavimento referido.

Do lado do Sul observa[va]-se, ao centro, uma porta para a Casa da Agua, ou da Fonte, e logo um corredor, no qual fica[va] a Cosinha, Refeitorio, Aulas do Asylo para educação de costureiras e creadas, e da[va] saida para o Caminho Novo, á esquerda, e para uma escada, á direita, que leva[va] a umas casas abobodadas subterraneas, e ao terraço com parreiras, e Cerca de Baixo. No fundo d'este mesmo corredor há[via] uma escada de madeira conduzindo tambem, ao segundo pavimento, aonde se acha[va]m dois grandes dormitorios, e casa de lavatorios, modernamente construidos.

Do Leste fica[va] a Sachristia do Convento e mais divisões, onde [...] esta[va] montada a Enfermaria do Asylo. Do lado opposto ha[via] quatro portas, sendo tres de casas de arrecadação, e a quarta da Casa dos Tanques, pela qual so se communica para a Cerquinha.

Na galeria (segundo pavimento) h[avia] as seguintes Capellas, denominadas:

- Do Senhor no Horto,

- Do Ecce Homo,

- Do Senhor preso à columna

- Do Senhor sentado na pedra fria,

- Do Senhor da Canna Verde,

- Do Senhor dos Passos;

Todas de madeira com vidraças e portas, tudo de nenhuma importancia artistica;

- Do Calvario. Acha[va]m-se embebidas no frontal e lados do altar d'esta Capella oito gravuras a talhe doce. As paredes a terço, revestidas de azulejos, e a parte restante de quatro quadros a oleo com molduras de talha dourada. O tecto [era] pintado a oleo representando o Cèu com Anjos. Tudo de pouco valor artistico. D[ava], ao lado direito, passagem para as tribunas da Capella-Mór da Egreja, e t[inha], alem da porta, duas janellas para a galeria;

- Dos Anjos. O fundo do altar [era] um quadro a oleo representando Sam Francisco dando o habito a Sancta Clara. Paredes lateraes ornadas com dois quadros a oleo = O Senhor Morto, A Virgem, Sancta Maria Magdalena, e São João Baptista = e o Pentecoste = Aos lados da porta da entrada dois quadros de Freiras. Tecto pintado a oleo com ornatos, e um quadro a oleo = Sam Francisco recebendo as chagas de Christo =

No Terraço com parreiras, que se observa[va] n'um desenho anexo, exist[ia]m do lado do Caminho Novo, duas Capellas, quasi eguaes, denominadas de = Sam João Baptista = e de = Sam Pedro =. As paredes [er]am forradas de azulejos com o desenho das vidas dos respectivos Sanctos. Tectos de madeira. Pavimentos de cantaria.

Fronteira a ellas fica[va] uma terceira Capella chamadas de = Sancta Maria Magdalena = As paredes [er]am egualmente forradas d'azulejos tendo desenhos da vida d'esta Sancta. Tecto de abobada. Pavimento de pedra e tijolo. Tudo de mediocre execução" (ANTT, Idem, f. 0461-0464).

Inventário de extinção
Ministério das Finanças, Convento do Santo Crucifixo das Francesinhas de Lisboa, Cx. 1987

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O auto de abertura do primeiro inventário de bens do Convento do Santo Crucifixo data de 28 de Fevereiro de 1859, contando com a presença do Reverendo Luiz Augusto Teixeira Neto de Mello e Vasconcelos (prior da paroquial Igreja de São Mamede), comissionado por Manoel José Fernandes Cicauro(?) (Vigário Geral interino do Patriarcado), Anna Gertrudes da Conceição (abadessa do convento) e Miguel Augusto Pacheco (escrivão, aspirante de segunda classe da repartição de fazenda do distrito de Lisboa, nomeado pelo Delegado do Tesouro de Lisboa) - f. 0005. O termo de abertura do inventário data de 2 de Março seguinte, iniciando-se a inventariação, descrição e avaliação do convento (4:000$00), cerca (1:200$00) e prédios anexo (2:160$00), num valor total de 7:360$00 (f. 0008-0010). A estes, soma-se um conjunto de títulos (seis inscrições, um certificado provisório - que faziam parte de um legado deixado por Agostinho José das Neves - e um título de renda vitalícia), num total de 412$50 (f. 0008-0010).

Este inventário faz uma descrição sumária do convento/igreja e sua cerca. Sobre o edifício é referido que "está situado [...] ao lado do Sul da Calçada da Estrella e faz cunhal para o Caminho Novo para onde a Igreja tem outra porta de serventia, havendo na dita Calçada um portão que dá entrada para um pateo, onde há uma casa que a Veleira do Convento habita, e uma porta que dá serventia para o Convento, o qual consta de dois pavimentos; contendo o pavimento inferior cozinha, refeitorio e mais casas para arrecadação, e no claustro uma cisterna que recebe as aguas da chuva; e o superior os dormitorios; deste há serventia para o couro e tem uma varanda em roda do claustro sôbre arcos de cantaria e fechada d'abobada" (f. 0008). A cerca, compunha-se "de horta com algumas arvores de fruta, terra de semeadura, um tanque d'alveneria onde vem a agua encanada d'um pôço com engenho real coberto com um telheiro d'onde tambem vai agua encanada para gastos do Convento; e confronta a dita Cerca, pelo lado do Norte com a Calçada da Estrella, pelo Nascente com o Caminho Novo; pelo Sul com a Cêrca do Convento das Inglesinhas, e pelo poente com terras pertencentes ao mesmo Convento" (f. 0009). É igualmente referido que "pertence também ao dito Convento um assento de casas á frente da Calçada da Estrella com lojas e primeiro andar, para a qual tem portas e janellas sem numero, havendo na mesma Calçada um portão tambem sem numero que dá serventia para um pateo, onde está um pôço a uso de balde; e tem portas de serventia para o predio com escada o primeiro andar, o qual é occupado pelo Confessor e Capellão do mencionado Convento, e as lojas pelos servos do mesmo, achando-se o dito predio todo arruinadao e percizando de concertos" (f. 0009).

Relativamente aos bens monetários(?), é referido que as religiosas "não podem ter bens proprios"(f. 0071), tendo-lhes sido legadas as inscrições que possuíam. O mapa do pessoal do convento elaborado nesta data permite perceber a existência de 11 freiras, 3 professas de véu branco, 2 pupilas, 1 recolhida e uma religiosa professa do Convento de Lamego (f. 0530).

Com a morte da última religiosa (Henriqueta Maria da Conceição) a 9 de Março de 1890, o convento é declarado extinto e o Estado Português toma posse dele a 20 de Março seguinte (f. 0313-0316). O segundo inventário é aberto pouco depois (em data posterior a 21 de Abril de 1890), elaborado por Manuel Joaquim Carrilho Garcia (administrador do quarto bairro), Joaquim Lourenço Leitão (reverendo presbítero nomeado pelo Cardeal Patriarca) e pelo escrivão Henrique Joaquim d'Abranches Bizarro. Nele é feita a descrição dos bens [títulos (avaliados em 8:100$00), imagens (avaliadas em 1:559$500 - f. 0331-0342), alfaias (avaliadas em 113$600 - f. 0343-0345), ornamentos (tecidos, avaliados em 728$200, f. 0347-0362; madeiras, avaliadas em 1:087$100 - f. 0363-0377), armações (avaliadas em 262$700 - f. 0379-0388), pratos (avaliados em 251$277 - f. 0391-0395), quadros (avaliados em 995$850 - f. 0399-0410), livros (avaliados em 123$800 - f. 04130-431), mobiliário (avaliado em 226$300 - f. 0435-0447)] e móveis da igreja (avaliados em 25$500 - f. 0449-0451).

A totalidade dos espaços conventuais foi avaliada em 190:440$06 [convento: 73:684$580 (f. 0464); igreja: 15:320$00; (f. 0469); coro: 5:180$00 (f. 0460); cerca e casas anexas: 57:745$480 (f. 0466); terrenos: 38:510$000 (f. 0458)].

Este inventário faz uma muito completa descrição dos espaços conventuais (ver descrição arquitectónica). O inventário de extinção possui ainda uma planta colorida do terreno pertencente ao convento e da implantação do diferente edificado (f. 0471).

A 20 de Janeiro de 1891 foi realizado um inventário suplementar exclusivamente relativo ao mobilário do convento (12:100$00), em virtude de "se acha[rem] dentro d'uma arca, onde foram recolhidos quando escolhidos pelo Inspector da Academia de Bellas Artes, para o Museu Nacional, tendo por isso depois esquecido incluil-os no inventário geral" (f. 0523). Estiveram presentes, Manuel Joaquim Carrilho Garcia (administrador do quarto bairro), Silvério António Marques (louvado) e Henrique Joaquim d'Abranches Bizarro ("encarregado pelo Excellentissimo Inspector de Fazenda Pública [...] da feitura do inventario dos bens da alludido Convento" (f. 0509-0513).

A 28 de Fevereiro de 1891 procedeu-se ao inventário do cartório do convento (f. 0517-0520).

A 17 de Junho de 1890 é assinado um termo de entrega de objectos à Academia Real de Belas-Artes de Lisboa (f. 0211-0213). No decorrer do mês seguinte, é elaborada nova lista de 34 objectos (maioritariamente peças de mobiliário) a serem incorporadas na mesma instituição (f. 0085-0086).

A 30 de Junho seguinte é assinado um "termo de saída dos móveis e roupas pertencentes às ex-pupillas do Convento do Sancto Crucifixo" (f. 0487-0489). A 22 de Outubro é assinado o termo de entrega de livros à Biblioteca Nacional de Lisboa (f. 0497-0498) e a 13 de Novembro o termo de "entrega por depósito ao Emintentíssimo Senhor Cardeal Patriarcha da chaves da Egreja e mais objetos tocantes ao Culto Divino que estavam na posse da ultima Religiosa fallecida" (f. 0501-0503).

Após a extinção do convento foi discutido o seu uso futuro. A 25 de Abril de 1890 é concedido provisoriamente parte do edifício ("comprehendendo o claustro e casas proximas" - f. 0159) ao Asilo para Educação de Costureiras e Criadas de Servir (f. 0481-0483) e a 27 de Junho de 1891 é assinado o termo de entrega à mesma instituição de "um pedaço de terra de horta denominada a cerquinha, o pateo que dá entrada pela Calçada da Estrella, e a casa da veleira no mesmo pateo" (f. 0303-0304). Este documento é assinado por Francisco de Paula Mendonça Pessanha, (Administrador do quarto bairro), do oficial de diligências José de Souza e Sá, D. José de Saldanha de Oliveira e Souza (director da instituição) e por António da Costa Moraes, escrivão da fazenda do referido bairro da cidade; (a viscondessa de Carvalho, directora e secretária do dito asilo, encontra-se também presente, não tendo assinado o documento). A 12 de Dezembro do mesmo ano é assinado um "termo de entrega, temporariamente, da Egreja, respectivos paramentos, alfayas, e mais objectos do Culto, do supprimido Real Convento de Sancto Crucifixo (Francezinhas) ao Asylo para educação de Costureiras e Creadas" (f. 0219-0221).

No início de 1893 a superintendência dos serviços de desinfecção, "reconhecendo a urgencia de se augmentar os meios de defesa d'esta cidade [de Lisboa], na previsão d'uma epidemia proseguiu os seus estudos para a escola de lugar apropriado ao estabelecimento do posto de desinfecção" (f. 0046). Numa primeira fase, a escolha do local recaiu na "cêrca do convento de Stª Joanna, a Sta. Martha, pertencente aos proprios nacionaes [visto] corresponde[r], ainda que um pouco afastada do centro da densidade da população às principais condições exigidas para o referido posto" (Idem), nomeadamente isolamento, extensão do terreno, boas comunicações e relativo baixo custo de instalação. No entanto, em Junho seguinte, o superintendente dos serviços de desinfecção reconheceria "que a cerca de baixo do supprimido convento das Francezinhas correspond[ia] melhor do que a do Convento de Santa Joanna [...] ás condições exigidas para o estabelecimento do posto de desinfecção" (f. 0044), pelo que a 15 de Junho seguinte a Direcção Geral dos Próprios Nacionais autoriza a cedência do terreno necessário para a instalação do referido posto (f. 0044).

A 12 de Junho de 1893 a Associação Promotora do Ensino dos Cegas, "autorizada por alvará de 26 de Fevereiro de 1891 [...] [e que havia já] fundado nesta cidade [de Lisboa] uma escola especial para cegos, onde se acha[va]m internadas vinte e tres creanças de ambos os sexos", solicita ao rei a concessão de "uma facha de terreno na cerca do extincto convento das Francesinhas a fim de [...] fazer construir com as condições precisas, um edificio para escola de cegos" (f. 0038-0039).

De 1902 data o termo de entrega de um orgão e uma imagem de Nossa Senhora da Conceição em roca à paróquia de Lousa, Castelo Branco, "legada[s] á dita Junta de parochia pelo Padre Joaquim Lourenço Leitão, por lhe pertencerem, e existente no espólio do supprimido Convento das Francesinhas" (f. 0058-0061).

Um dos últimos documentos do processo de extinção dá conta que "em um dos primeiros dias do corrente mez de Outubro [de 1910], a pretexto de verificarem se no edificio existiam padres ou armas, foi dada busca minuciosa a toda a casa por marinheiros e populares armados [...] [tendo] este facto produzi[do] alarme nas familias das creanças, e como poucos dias depois o governo provisorio tivesse mandado retirar as irmãs hospitaleiras portuguesas, a cargo de quem estará a administração interna do asylo, as creanças foram entregues ás familias e as abandonadas mandadas recolher em outros internatos" (f. 0089), sendo igualmente dada conta da retirada de objectos do convento no pós-5 de Outubro de 1910.

Cronologia
1665 Início das diligências, junto da Santa Sé, para a fundação de um convento de capuchinhas em Lisboa.
1665-05-13 Apresentação no Conselho de Estado de um pedido do duque de Vandôme, avô de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (futura rainha de Portugal) solicitando autorização para que, na sua vinda para Lisboa, a acompanhem quatro religiosas capuchinhas francesas.
1666-06-22 Frei Timotheo de Lominé (Provincial dos Frades Menores Capuchinhos da Província da Bretanha), nomeia frei Gabriel de Serant, Superior do Hospício de Nossa Senhora da Porciúncula de Lisboa (Lxconv092) para confessor e director espiritual do convento.
1666-08-02 Chegada a Lisboa da rainha e das religiosas. Estas últimas recolhem-se no Convento de Nossa Senhora da Quietação (Lxconv002).
1667-02-20 Compra a D. Maria Madalena Freira de uma quinta que se encontrava aforada às freiras do Convento de Nossa Senhora da Esperança.
1667-02-26 Compra, a Luísa Dias, da propriedade onde seria construído o edifício conventual e que se encontrava até então aforada às religiosas do vizinho Convento de Santa Brígida.
1667-03-01 Passagem das religiosas capuchinhas francesas do Convento de Nossa Senhora da Quietação para o Convento de Nossa Senhora Esperança.
1667-03-03 Licença do Cabido da Sé de Lisboa para a fundação do cenóbio.
1667-04-18 Passagem em procissão solene das religiosas capuchinhas francesas do Convento de Nossa Senhora da Esperança para uma pequena ermida provisória, construída junto ao local onde estava a ser edificado o convento.
1673-08-13 Profissão de Madre Maria de São José, primeira noviça do convento.
1674 Transferência do Santíssimo para a igreja do convento e entrada das religiosas na clausura.
1691-10-22 Termo de entrega do corpo da infanta D. Izabel Luiza Josefa no Convento do Santo Crucifixo.
1700-04-26 Alvará de aprovação do Compromisso da Irmandade do Santíssimo Crucifixo, sita no Real Mosteiro das Capuchas Francesas de Lisboa.
1706 Três religiosas do Convento do Santo Crucifixo - Maria Madalena do Sepúlcro, Jacinta da Madre de Deus e Catarina Maria do Lado - saem para fundar o Convento de Nossa Senhora da Conceição da Luz, perto de Carnide.
1712 As obras na capela-mor e o claustro não se encontravam ainda concluídas.
1714 | 1716 Os dois lugares de confessores do convento foram dados a religiosos capuchinhos italianos.
1739-04-23 Por bula do Papa Clemente XII o convento passa a ter jurisdição diocesana.
1755-11-01 O Convento do Santo Crucifixe não sofre grandes danos com o terramoto.
1832-10-27 No âmbito do Aviso de 19 de Setembro, do Ministério dos Negócios da Guerra, relativo aos donativos de lenços e roupas para os hospitais militares, a abadessa e as religiosas do Convento do santo Crucifixo entregam «2 arrateis e 4 onças de fios, e 2 arrateis de panno para curativo».
1834-05-30 Decretada a extinção de todas as casas religiosas masculinas das Ordens regulares e a nacionalização dos seus bens. As comunidades femininas mantêm-se mas ficam impedidas de emitir votos.
1858 Residiam no convento doze madres (entre os 50 e os 85 anos de idade), três professas de véu branco, duas pupila, uma recolhida e sete empregados (confessor, capelão, sacristão, veleira, caseiro, comprador e lavadeira).
1861-04-04 Lei sancionando o decreto das cortes gerais de 28 de Março de 1861, que estabelece os termos em que deve proceder-se à desamortização dos bens eclesiásticos. O artº 11º refere que "Todos os bens que, no termo d´esta lei, constituírem propriedade ou dotação de algum convento que for supprimido na conformidade dos canones, serão exclusivamente aplicados á manutenção de outros estabelecimentos de piedade ou instrucção e á sustentação do culto e clero". E que uma lei especial regulará esta aplicação.
1862-05-31 Decreto que regula a execução do artigo 11º da Lei de 4 de Abril de 1861. Inclui as instruções "sobre a administração e rendimento dos conventos de religiosas suprimidos".
1863-03-18 Sendo o terreno insuficiente para a instalação do novo cenóbio, a rainha compra uma quinta ao Conde de Vila Verde.
1884-07-23 Concessão de parte do edifício à Associação dos Asilos para a Educação de Costureiras e Criadas de Servir, para instalação de uma escola.
1890-03-09 Morte da última religiosa (Madre Henriqueta Maria da Conceição) e consequente extinção do convento.
1890-03-20 Tomada de posse do edifício pela Fazenda Nacional.
1890-04-25 Concessão provisória do edifício à Associação dos Asilos para a Educação de Costureiras e Criadas de Servir.
1891-12-12 Entrega da igreja e dos objectos de culto à Associação dos Asilos para a Educação de Costureiras e Criadas de Servir, que passam a deter a totalidade do edifício.
1909-04-23 Na sequência do tremor de terra que atinge principalmente a região a norte de Lisboa, a igreja é encerrada por risco de ruína em sequência dos danos sofridos.
1910-10 as Irmãs Hospitaleiras deixam de estar à frente do Asilo; desaparecem do edifício diversos objectos de culto da igreja.
1911-05 Início das obras de demolição do convento.
1911-05-10 O Governo Provisório da República autoriza a demolição do convento.
1911-05-20 É decretada a passagem do edifício do extinto Convento das Francesinhas para a dependência do Ministério do Fomento, afim de nele ser instalado o Instituto Comercial e Industrial de Lisboa.
1911-07-14 Decreto que determina as bases regulamentares do Instituto Superior Técnico. De acordo com o artº 84º, o terreno do recém-demolido convento das Francesinhas passa a ser propriedade do Instituto.
1912-04-12 Leilão do recheio do convento.
1915-03-05 Ingressa no Museu do Carmo o baixo-relevo da porta do convento.
1935 Construção, no espaço do antigo convento, da "Lisboa Antiga" simulando um bairro típico.
1949 Inauguração do Jardim das Francesinhas.
1990-01-01 | 1999-12-31 Construção, na cerca do antigo Convento do Santo Crucifixo, de dois edifícios do Instituto Superior de Economia e Gestão.

Fontes e Bibliografia
Material gráfico

SEQUEIRA, Gustavo de Matos - Lisboa antes do Terramoto de 1755. Museu de Lisboa [1955-1959]. 17 tabuleiros, 10.260 x 4060mm, esc. 1: 500.

Cartografia

CARVALHO, José Monteiro de; - [Livro das plantas das freguesias de Lisboa]. Códices e documentos de proveniência desconhecida, nº 153, Planta da nova freguezia de N. Sª da Lappa, f. 13 (imagem 0040).

[Enquadramento urbano | Convento do Santo Crucifixo de Lisboa, 1834].

[Enquadramento urbano | Convento do Santo Crucifixo de Lisboa, 2015].

FAVA, Duarte José; - [Carta Topográfica da cidade de Lisboa preparada em 1807]. 3 plantas. 2305-2-16-22.

FERREIRA, Francisco António; - [Mapa topografico dos Terrenos que medeião entre a Pampulha e a Calçada da Estrella / feito geometricamente pelo Architeto da inspecção da cidade de lisboa Francisco Antonio Ferreira].

FOLQUE, Filipe; - [Carta Topográfica de Lisboa e seus arredores, 1856/1858]. 1:1000. 65 plantas; 92 X 62,5cm, Planta 41 (Agosto 1856).

[Levantamento altimétrico da cidade de Lisboa, 1871]. 65 plantas (?).

[Notícia estadística de Lisboa: ou breve notícia das cousas mais notáveis que Lisboa contém e planta da cidade de Lisboa].

PINTO, Júlio António Vieira da Silva; - [Levantamento da planta de Lisboa, 1904/1911]. 1: 1000. 249 plantas; 80 X 50cm, Planta 9F (Fevereiro 1911).

Manuscrito

Inventário de extinção do Convento do Santo Crucifixo das Francesinhas de Lisboa. [Manuscrito]. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Ministério das Finanças, Convento do Santo Crucifixo das Francesinhas de Lisboa, Cx. 1987.

Monografia

BARBOSA, José - Historia da Fundação do Real Convento do S. Christo das Religiosas Capuchinhas Francesas, Vidas das Suas Fundadoras, e de algumas Religiosas insignes em virtudes. Lisboa: Officina de Francisco Luís Ameno, 1748.

BRANDÃO, Francisco - Quinta Parte da Monarchia Lusitana: que contem a historia dos primeiros 23 annos del Rey D. Dinis. Lisboa: Officina de Paulo Craesbeeck, 1650.

CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo Terceiro, Parte V. Lisboa: Oficina Patriarcal de Francisco Luis Ameno, 1763.

CONCEYÇÃO, Fr. Apollinario da - Claustro Franciscano, Erecto no Dominio da Coroa Portuguesa e estabelecido sobre dezeseis venerabilissimas columnas. Expoem-se sua origem, e estado presente. Lisboa Occidental: Na Offic. de Antonio Isidoro da Fonseca, 1740, pp. 161-162.

COSTA, Padre António Carvalho da - Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal [...], Tomo Terceyro. Lisboa: Na Officina Real Deslandesiana, 1712.

História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, Tomo II. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1972, pp. 459-475.

PEREIRA, Luís Gonzaga - Monumentos Sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1927, pp. 273-275.

TIÇÃO, Álvaro - O Antigo Convento do Santo Crucifixo ou das Francesinhas em Lisboa: História, Arte e Memória: Dissertação de Mestrado em Arte, Património e Restauro. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2007.

Periódico

Alvará de 26 de Abril de 1700. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza [...], 1683-1700. Lisboa: Imprensa Nacional. 1859, p. 460.

Decreto de 14 de Julho de 1911. Diário do Governo, 1ª Série, nº 163. Lisboa: Imprensa Nacional. 15 de Julho de 1911, p. 2981.

Decreto de 2 de Fevereiro de 1911. Diário do Governo, I Série, número 199. Lisboa: Imprensa Nacional. 26 de Agosto de 1911, p. 3623.

Decreto de 31 de Maio de 1862. Collecção Completa de Legislação Ecclesiastico-civil desde 1832 até ao presente, 1º volume. Porto: Typographia Gutenberg. 1896.

Gazeta de Lisboa, nº 162. Lisboa: Na Impressão Régia, [10 de Julho de 1828], p. 921.

Gazeta de Lisboa, nº 257. Lisboa: Na Impressão Regia, [30 de Outubro de 1832], p. 1244.

Lei de 4 de Abril de 1861. Collecção Official de Legislação Portugueza [...]. Anno de 1861. Lisboa: Imprensa Nacional. 1862, pp. 155-157.

Termo de entrega de 22 de Outubro de 1691. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza [...], 1683-1700. Lisboa: Imprensa Nacional. 1859, p. 253.

Tiago Borges Lourenço; Hélia Silva - O "Convento das Inglesinhas", dinâmicas de uma (antiga) casa religiosa estrangeira em Portugal. Cadernos do Arquivo Municipal, 2ª Série, nº 3. Janeiro/Junho 2015, pp. 39-77.

Material Fotográfico
Convento do Santo Crucifixo | Exterior | Fachada nascente. JBN000276.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Convento do Santo Crucifixo | Exterior | Jardim das Francesinhas_Jardim Lisboa Antiga. ECML_20150513_013.

Convento do Santo Crucifixo | Exterior | Perspectiva nascente do Jardim das Francesinhas_Jardim Lisboa Antiga.

Convento do Santo Crucifixo | Exterior | Demolição. POR060083.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Convento do Santo Crucifixo de Lisboa | Exterior | Pintura de João Lewicki, 1853. MNV000417.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.

Convento do Santo Crucifixo | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Convento do Santo Crucifixo | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Convento do Santo Crucifixo | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Convento do Santo Crucifixo | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Convento do Santo Crucifixo | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.

Inventariantes
Tiago Borges Lourenço - 2015-05-25
Última atualização - 2017-08-22

Imagens: 10