Ficha de Casa Religiosa
    
Designação
Casa da Piedade das Penitentes

Código
LxConv113

Outras designações
Casa Pia das Penitentes; Recolhimento das Convertidas de Santa Maria Madalena; Recolhimento de Nossa Senhora da Natividade; Recolhimento das Convertidas; Recolhimento de Nossa Senhora da Piedade

Morada actual
Rua das Chagas

Sumário
Fundado entre 1586 e 1587 pelo Padre jesuíta Pedro da Fonseca, terá sido o primeiro recolhimento da Companhia de Jesus em Lisboa. Localizado num terreno na Rua das Chagas, simultaneamente próximo da também jesuíta Casa Professa de São Roque e da ermida das Chagas, foi concebido para recolher prostitutas, às quais era dada protecção e uma educação religiosa e doméstica com o objectivo final de embarcarem para o Ultramar e aí casarem, função que o recolhimento manteve ao longo dos tempos. Após a completa destruição do seu edifício pelo Terramoto de 1755, a Casa da Piedade das Penitentes passou por diversos locais até à sua instalação, em 1772, no edifício do antigo Convento dos Corpus Christi da Rua do Passadiço (freguesia de São José).

Caracterização geral
Ordem religiosa
Companhia de Jesus

Género
Feminino

Fundador
Pedro da Fonseca - Intenção religiosa

Data de fundação
1586 ou 1587

Caracterização actual
Situação
Demolido(a)

Descrição
Enquadramento histórico
Fundado entre 1586 e 1587 pelo Padre jesuíta Pedro da Fonseca, terá sido o primeiro recolhimento da Companhia de Jesus em Lisboa, localizando-se num terreno na Rua das Chagas, simultaneamente próximo da também jesuíta Casa Professa de São Roque e da ermida das Chagas.

Nele se recolhiam prostitutas, a quem era dada protecção e uma educação religiosa e doméstica. Segundo Francisco Ignácio dos Santos Cruz, as «mulheres, que entrávão na casa das convertidas, podião depois casar, e ir servir, se ellas tinhão dado provas de bons costumes, e sincero arrependimento, sendo em tal caso muito protegidas pelo estabelecimento para taes fins, e para os quaes erão tambem mandadas para o Ultramar [para casar], com especial recommendação aos Governadores. Ellas tinhão na casa differentes officinas de cozer, fiar, bordar, &c., e tambem lhes ensinávão a cosinhar, amassar, varrer, &c., emfim todo o serviço de ha casa, na hypothese de que o ignorassem; o preço modico de seos trabalhos erão para quem os fazia. Erão seguidos á risca os exercicios religiosos; tinhão suas horas de recreio, como sufficiente tempo de repouso nocturno» (CRUZ, 1841, pp. 216-217), corroborando assim integralmente a descrição de António Carvalho da Costa que, no ínicio de setecentos, refere que «viv[via]m com tanta clausura, & recolhimento governadas por huma Regente, (que sempre he mulher de porte) que parece hum reformado Mosteyro» (COSTA, 1712, III, p. 477).

«Governa[va-]se por doze homens nobres, & o Provedor sempre he hum Fidalgo de titulo. Cada anno se faz[ia] nova eleyção, a que assist[ia] hum Padre da Companhia por mandado do Preposito de S. Roque. [No início de setecentos era] Provedor desta Casa D. Manoel de Moura, Conde de Lumiares, filho de D. Christovão de Moura, Marquez de Castello Rodrigo, [que] alcançou del-Rey D. Felippe o II. Doze moyos de trigo de renda & trezendos mil reis de juro para seu sustento, & Breve de Roma para poderem ter o Santissimo Sacramento na Igreja. O Senhor Rey D. Pedro o II lhe deo tambem duzentos mil reis de renda cada anno» (IDEM).

Para além de relatos de diversas mulheres que saiam do recolhimento para casar nos territórios ultramarinos portugueses, são poucos os registos sobre o seu funcionamento. Completamente destruído pelo Terramoto de 1755 e pelo incêndio que se lhe seguiu e que atingiu grande parte do Bairro Alto, a Casa da Piedade das Penitentes esteve temporariamente instalada em diversos locais da cidade, até à compra do edifício do Convento dos Corpus Christi da Rua do Passadiço que, em 1772, permitiu que nele se alojasse o recolhimento.

Evolução urbana
Não obstante a plena integração do edifício na malha ortogonal quinhentista do Bairro Alto, a cartografia da época mostra a não consolidação total do quarteirão, um dado perfeitamente raro no bairro (Planta da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro): o lote de gaveto entre a Rua das Chagas e a Rua da Horta Seca junto ao edifício encontrava-se desocupado, não sendo revelado o motivo para tal na documentação da época. Tanto o edifício do recolhimento com o contíguo lote vazio se mantêm marcados na cartografia até cerca de um quarto de século depois do terramoto, surgindo já ambos ocupados no Carta Topographica de Lisboa de Duarte Fava, datada de 1809.

Caracterização arquitectónica
Tendo sido totalmente destruída pelo Terramoto de 1755 e subsequente incêndio, não existem quaisquer vestígios arquitetónicos do recolhimento. Maioritariamente se baseando na sua simples implantação, as mais pormenorizadas informações sobre o edifício são dadas em 1712 por António Carvalho da Costa, que refere que «a Igreja he de huma nave com a porta para o Sul, & tem tres Capellas, a mayor com sua tribuna dourada com Santa Maria Magdalena da parte do Evangelho, & Santo Antonio da banda da Epistola; as duas Capellas collateraes são, a de N. Senhora dos Remedios da parte da Epistola, & e a do Santo Christo da parte do Evangelho» (COSTA, 1712, III, p. 477). Entre o final de setecentos e o início de oitocentos foram construídos dois edifícios onde antes se implantava o recolhimento (e o vazio terreno contíguo), que parecem nada ter aproveitado da construção primitiva, tal como afirma Norberto de Araújo, quando, na década de 1930, escreve no livro V das Peregrinação de Lisboa que «uns pedaços de jardim desfigurado é tudo quanto resta da antiga Casa religiosa» (ARAÚJO, 1992, V, p. 22).

Cronologia
1586 ou 1587 Fundação do Recolhimento.
1755-11-01 O terramoto provoca total ruína no edifício.
1772 Compra do edifício do antigo Convento do Corpus Christi na Rua do Passadiço para nele serem instaladas as recolhidas das Chagas.

Fontes e Bibliografia
Cartografia

CARVALHO, José Monteiro de; - [Livro das plantas das freguesias de Lisboa]. Códices e documentos de proveniência desconhecida, nº 153, Planta da freguezia de N. Sº da Encarnacao, f. 31 (imagem 0076).

FAVA, Duarte José; - [Carta Topográfica da cidade de Lisboa preparada em 1807]. 3 plantas. 2305-2-16-22.

[Planta da Cidade de Lisboa na margem do rio Tejo: desde o Bairro Alto até Santo Amaro].

POPPE, Elias Sebastião; - [Configuração de partes das fortificações antigas da cidade de Lisboa [...]]. MC.DES.0010.

Monografia

ARAÚJO, Norberto de - Peregrinações em Lisboa, livro V. 2ª Edição. Lisboa: Vega, 1992, p. 22.

CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo Terceiro, Parte V. Lisboa: Oficina Patriarcal de Francisco Luis Ameno, 1763, pp. 267-268.

COSTA, Padre António Carvalho da - Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal [...], Tomo Terceyro. Lisboa: Na Officina Real Deslandesiana, 1712.

CRUZ, Francisco Ignacio dos Santos - Da Prostituição na Cidade de Lisboa: ou Considerações historicas, hygienicas, e administrativas em geral sobre as Prostitutas, e em especial na referida cidade: com a exposição da legislação portugueza a seo respeito, e proposta de medidas regulamentares, necessarias para a manutenção da Saude Publica, e da Moral. Lisboa. 1841.

FRANCO, António - Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus no Real Collegio de Jesus de Coimbra, Primeiro Tomo. Évora: Officina da Universidade, 1719.

PORTUGAL, Fernando; MATOS, Alfredo de - Lisboa em 1758: Memórias Paroquiais de Lisboa. Lisboa: Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1974, p. 310.

TELLES, Baltazar - Chronica da Companhia de Jesu da Provincia de Portugal. Segunda Parte. Lisboa: Officina de Paulo Craesbeeck, 1647, pp. 181-182.

Material Fotográfico
Casa da Piedade das Penitentes | Configuração de partes das fortificações antigas da cidade de Lisboa [...].

Inventariantes
Tiago Borges Lourenço - 2015-03-10

Imagens: 1