Ficha de Casa Religiosa
    
Designação
Hospício de Nossa Senhora do Carmo

Código
LxConv124

Outras designações
Recolhimento das Irmãs da Caridade; Recolhimento das Filhas da Caridade

Morada actual
Travessa do Loureiro, 10-12; Rua de Santa Marta, 32-32A

Sumário
O Hospício dos Carmelitas Calçados da Província do Maranhão foi fundado na Rua Direita de Santa Marta, em 1745, desconhecendo-se se numa pré-existência ou num edifício construído de raiz para o efeito.

Pouco se conhece da realidade do funcionamento deste hospício, tratando-se de um edifício de dois pisos localizado no gaveto da Rua de Santa Marta com a Travessa do Loureiro. A sua igreja foi paroquial do Coração de Jesus entre 1780 e 1790.

Após ter-lhes sido doado em 1821, as Filhas da Caridade instalaram aí a sua casa central. Depois de duas expulsões do país (em 1862 e 1910), retornam ao edifício de Santa Marta em 1932, já depois de lhe ter sido acrescentados dois pisos (em 1886) e de nele ter funcionado uma escola primária (no início do século XX). Em 1949 abandonam-no em definitivo, e o edifício é comprado por um particular que o altera profundamente para aí se estabelecer a sede da Caixa de Previdência dos Técnicos e Operários Metalúrgicos e Metalo-Mecânicos. No decorrer da segunda metade de novecentos é comprado pelos CTT, que aí instalam o seu Instituto de Obras Sociais. O edifício encontra-se devoluto desde a segunda metade da década de 2000.

Caracterização geral
Ordem religiosa

Ordem do Carmo. Província do Maranhão

Data de fundação
1745

Componentes da Casa Religiosa - 1834
Hospício
Igreja

Caracterização actual
Situação
Hospício - Vestígios
Igreja - Demolido(a)

Propriedade
CTT

Ocupação
Hospício - Devoluto(a)

Acesso
Privado

Descrição
Enquadramento histórico
Segundo João Baptista de Castro, o Hospício dos Carmelitas Calçados da Província do Maranhão foi fundado na Rua Direita de Santa Marta em 1745 (CASTRO, III, 1763, p. 286), desconhecendo-se se numa pré-existência ou se num edifício construído de raiz para o efeito. Principal via de saída a norte, por essa altura ao longo e em torno do eixo Portas de Santo Antão/Rua Direita de São José/Rua Direita de Santa Marta/Andaluz/Rua de São Sebastião da Pedreira localizava-se um dos mais significativos conjuntos de casas religiosas de Lisboa extramuros.

Pouco se conhece da realidade do funcionamento deste hospício, sabendo-se que a sua igreja foi sede da recém-criada paróquia do Coração de Jesus entre 1780 e 1790 (ARAÚJO, XIV, 1993, p. 90). Localizado num terreno no gaveto, desenvolvia-se em dois pisos, com entrada principal para a Rua de Santa Marta, rasgando-se a porta da igreja na fachada lateral, voltada para a Travessa do Loureiro.

Os religiosos ocuparam o edifício até ao início do século XIX, tendo este sido doado, por decreto das Cartas Constituintes de 28 de dezembro de 1821, às Filhas da Caridade, que aí instalam a sua casa central. No século seguinte, a história do edifício encontra-se profundamente ligada à atribulada história desta congregação religiosa, feita de expulsões e regressos ao país: quando são expulsas a primeira vez, em 1862, a casa central das irmãs da Caridade encontrava-se já no antigo Convento de São Domingos de Benfica (LxConv071), para onde voltam aquando do seu regresso ao país em 1881, desconhecendo-se de que era a posse do antigo hospício de Santa Marta neste período.

No levantamento que Francisco Goullard faz da Travessa do Loureiro em 1881 o edifício surge referido como Recolhimento das Irmãs da Caridade, estando nessa altura em posse destas o edifício com o pátio da Travessa do Loureiro, localizado entre o edifício do antigo hospício e o Asilo de São João (AML, Levantamento topográfico de Francisco Goullard, nº 84). Em 1886 dá entrada na Câmara Municipal de Lisboa (CML) um projeto de ampliação do edifício, de dois para quatro pisos, da autoria do arquiteto Francisco Goullard que, tendo sido autorizado, o altera profundamente (AML, Obra nº 25841, I, Proc. 1496/1ª Rep./PG/1886, f. 4). Segundo indicação no desenho que acompanha o processo, à época funcionava no edifício um asylo [...] pertencente ao padre [...] Capelão de São Luís dos Franceses. (AML, Idem).

No início do século XX encontra-se instalada uma escola primária. Após nova expulsão com a implantação da República, as Irmãs da Caridade regressam a Portugal em 1930, voltando a instalar a sua casa central em Santa Marta dois anos depois, em cujo edifício instalam igualmente um internato e semi-internato para meninas. Em junho de 1940 entregam um requerimento à CML de modo a poderem aumentar o dormitorio das educandas afim de tornal-o mais higienico - O predio tem 4 andares, o sotão foi aproveitado para dormitorio. É muito necessario altear o pé direito de um metro e alargar a area de um metro de cada lado - Egualmente pedem que lhes seja permitido alargar uma janela do 4º andar afim de aumentar a cubagem de uma classe e assim facilitar um maior numero de matriculas (AML, Idem, Proc. 31454/1940, f. 1).

No início da década de 1940, a então já designada Congregação Religiosa-Associação de Beneficiência das Casas de S. Vicente de Paula enceta esforços para a construção de um novo edifício com um conjunto de valências e condições que a sua casa de Santa Marta não possuía. Em obras desde 1944, a nova casa central, ao Campo Grande, é finalmente inaugurada a 8 de setembro de 1949, coincidindo com a venda do edifício do antigo hospício carmelita a José Teodoro dos Santos. Pouco depois, o novo proprietário foi procurado pelo director dum Organismo Corporativo que lhe propoz o arrendamento desta propriedade, desde que nela fossem feitas as obras necessárias a permitir a instalação dos serviços administrativos desse Organismo (AML, Idem, Proc. 42468/1952, f. 1). Nesse contexto, encarrega Raúl Tojal de elaborar um projeto de alteração do edifício, contando com o acompanhamento de Jayme Couvreur, técnico da Caixa de Previdência dos Técnicos e Operários Metalúrgicos e Metalo-Mecânicos, a entidade que pretendia aí instalar a sua sede. Na memória descritiva de 16 de junho de 1952, Tojal descreve o seu projeto como uma adaptação ás exigencias dos serviços dum organismo Cooperativo que [o proprietário] pretende lá instalar-se [sendo] [...] [obedecendo] todas as alterações [...] interiores [...] a um programa de exigencias subordinadas á mecanica organica dos respectivos serviços do Grémio dos Metalurgicos. Na planta do 1º pavimento, serão feitas as necessarias demolições para se estabelecer um vestibulo condigno com o organismo, uma grande sala para os serviços centrais, com as peças acessorias e a habitação de porteiro. A caixa de escada, que será alterada, será instalado um ascensor, para serviço interno. [...] No 1º andar, serão tambem feitas as alterações indicadas para instalar tambem serviços do organismo e os competentes sanitarios para os dois sexos, que tão acessos absolutamente destrinçados. Os pavimentos destes sanitarios e de todos aquele que serão construidos expressamente, serão construidos estructuralmente em cimento armando [...] [sendo] os pavimentos revestidos de mosaico hidraulicos. [...] Nos pavimentos do 2º, 3º e 4º andares, destribuem-se variados outros serviços que obrigaram a alterações [...]. Paredes de divisão que foram eliminadas e outras que obedeceram á destribuição. [...] O sotão [...] continuará a ser destinado para arrumação (AML, Idem, Proc. 22452/1952, f. 2-2v). Este processo pressupunha igualmente a demolição da capela interior para conquistar um espaço, que nas condições actuais não pode ser utilizado. (AML, Idem, Proc. 31380/1952, f. 1)

Submetido à CML, este projeto foi inicialmente indeferido sob a alegação de que o edificio em referência sofre tão profundas alterações que não é de consentir em virtude do local estar sujeito a futuro arranjo de urbanização, que implicava a construção de novos arruamentos e, neste caso particular, a demolição do edifício e respetiva reconstrução em alinhamento mais recuado.

Aprovado pouco depois, este projeto acabaria por modificar profundamente o edifício [a ponto de ser referido como reconstruído de novo (AML, Idem, Proc. 48868/1953, f. 1), resultando numa solução híbrida entre um edifício tardo-oitocentista de raiz setecentista com um conjunto de preceitos modernistas, nomeadamente a regularização dos vãos da fachada principal e desenho das portas e gradeamento das janelas do piso térreo.

Na segunda metade do século XX o edifício é adquirido pelos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT), que aí instalam o respetivo Instituto de Obras Sociais. Em 2001 é aberto um concurso público para adjudicação de empreitada de remodelação do edifício, nomeadamente demolições parciais do interior, substituição dos revestimentos de pavimentos, paredes e tectos, carpintarias e serralharias e renovação das instalações eléctricas (Diário da República, Série III, nº 98, de 27 de abril de 2001, pp. 9060-9061). Encontra-se devoluto desde a segunda metade da década de 2000.

Evolução urbana
O eixo formado pela Portas de Santo Antão/Rua Direita de São José/Rua Direita de Santa Marta/Largo do Andaluz/Rua de São Sebastião da Pedreira constituiu-se cronicamente como a principal via de entrada e saída da cidade a norte. No decorrer do século XVIII, ao longo e em torno deste eixo, localizava-se um dos mais significativos conjuntos de casas religiosas de Lisboa extramuros. No próprio eixo, o Convento de Santa Marta (LxConv017), o Convento de Santa Joana (LxConv016) e o Convento de Santa Rita de Cássia (LxConv094); na face poente da Colina de Santana (em cujo sopé o dito eixo se localizava), o Convento de Santo António dos Capuchos (LxConv076), o Convento de Santa Ana (LxConv039), o Convento do Corpus Christi / Recolhimento da Natividade de Nossa Senhora e Santa Maria Madalena (LxConv096) e o Hospício de Nossa Senhora das Mercês da Província do Maranhão (LxConv125). O edifício do Hospício de Nossa Senhora do Carmo implanta-se num terreno de gaveto localizado na Rua de Santa Marta e Travessa do Loureiro, integrado no Bairro de São José, um bairro de raiz seiscentista inserido na encosta poente da Colina de Santana que manteve o seu traçado urbano praticamente inalterado desde a sua fundação. A principal alteração da área envolvente do hospício (ainda que não inferindo com esta) ocorreu na segunda metade do século XIX, envolvendo o rasgamento da Avenida da Liberdade e ruas adjacentes (em especial da Rua Rodrigues Sampaio, paralela à Rua de Santa Marta).

Caracterização arquitectónica
A concretização dos projetos de alteração de 1886 (resultando na construção de dois novos pisos) e de 1952 (que terá resultado maioritariamente na alteração dos interiores e regularização dos vãos) impede que se tenha um conhecimento rigoroso de como seria o edifício. A ideia mais aproximada será a que é dada pelo prospeto de alterações de 1886, que permite perceber tratar-se originalmente de um edifício de dois pisos com duas portas para a Rua de Santa Marta e uma porta de acesso à igreja (com portal trabalhado) na fachada voltada para a Travessa do Loureiro.

Cronologia
1745 Fundação do Hospício de Nossa Senhora do Carmo.
1780 | 1790 A igreja do hospício é sede da recém-criada paróquia do Coração de Jesus.
1821-12-28 Por decreto das Cortes Constituintes, o edifício do antigo hospício é doado às Filhas da Caridade de Portugal, que aí instalam a sua casa central.
1834-05-30 Decreto de extinção das casas religiosas masculinas das ordens regulares e nacionalização dos seus bens.
1886 Projeto de alteração do edifício, prevendo a sua ampliação em dois pisos.
1932 A Congregação religiosa Associação de Beneficiência das Casas de São Vicente de Paula regressa ao edifício, aí instalando de novo a sua casa central e um internato e semi-internato para meninas.
Século XX - início Funcionou uma escola primária no edifício.
1949 Com a mudança da congregação religiosa para o seu novo edifício, ao Campo Grande, o edifício da Rua de Santa Marta é vendido a um particular.
Século XX - 2ª metade Os CTT - Correios de Portugal S.A. adquirem o edifício, aí instalando o seu Instituto de Obras Sociais.


1952 Raúl Tojal elabora um projeto de alterações para o edifício com vista à instalação da Caixa de Previdência dos Técnicos e Operários Metalúrgicos e Metalo-Mecânicos, que pressupunha nomeadamente a demolição da capela.
1953 Obras de alteração no edifício.
2000 - década O edifício fica devoluto.
2001-01-27 Anúncio de abertura de um concurso público para adjudicação de empreitada de remodelação do edifício.

Fontes e Bibliografia
Material gráfico

Prospeto do Hospício que a Associação de Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos pretende alterar na rua do Loureiro, freguesia de S. José. Arquivo Municipal de Lisboa [1859].

Cartografia

CARVALHO, José Monteiro de; - [Livro das plantas das freguesias de Lisboa]. Códices e documentos de proveniência desconhecida, nº 153, Planta da nova freguezia de S. Joanna, f. 22 (imagem 0058).

[Enquadramento urbano | Hospício de Nossa Senhora do Carmo, 1834].

[Enquadramento urbano | Hospício de Nossa Senhora do Carmo, 2015].

FOLQUE, Filipe; - [Carta Topográfica de Lisboa e seus arredores, 1856/1858]. 1:1000. 65 plantas; 92 X 62,5cm, Planta 27 (Novembro 1857).

PINTO, Júlio António Vieira da Silva; - [Levantamento da planta de Lisboa, 1904/1911]. 1: 1000. 249 plantas; 80 X 50cm, Planta 10H (Março 1911).

[Planta Topografica da porção do terreno que jaz entre os extremos de Lisboa [...], 1757]. MC.DES.0981.

REVEREND, Carlos Ignacio de; - [Planta geométrica do Bairro de Andaluz, 1756]. MC.DES.0983.

Monografia

ARAÚJO, Norberto de - Peregrinações em Lisboa, livro XIV. 2ª Edição. Lisboa: Vega, 1993, p. 90.

Arquivo Municipal de Lisboa - Obra nº 21845: Travessa Loureiro, 10 a 12; Rua de Santa Marta, 32 a 32A. 2 volumes.

CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo Terceiro, Parte V. Lisboa: Oficina Patriarcal de Francisco Luis Ameno, 1763, p. 286.

PORTUGAL, Fernando; MATOS, Alfredo de - Lisboa em 1758: Memórias Paroquiais de Lisboa. Lisboa: Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1974, p. 130.

Electrónico

Província Portuguesa das Filhas da Caridade de S. Vicente de Paula [Consult. 15-02-2016].

Periódico

Diário da República, 3º Série, nº 98. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, [27 de Abril de 2001], pp. 9060-9061.

Material Fotográfico
Hospício de Nossa Senhora do Carmo | Exterior | Fachada poente. DPC_20150904_054.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2015.

Hospício de Nossa Senhora do Carmo | Exterior | Fachada sul. DPC_20150904_056.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2015.

Hospício de Nossa Senhora do Carmo | Exterior | Fachada sul. DPC_20150904_055.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2015.

Hospício de Nossa Senhora do Carmo | Exterior | Fachada sul. FAN001428.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa

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Inventariantes
Tiago Borges Lourenço - 2016-02-15

Imagens: 4