Da cidade sacra à cidade laica. A extinção das ordens religiosas e as dinâmicas de transformação urbana na Lisboa do século XIX

(1/1)
Designação
Hospício de São Francisco de Borja

Código
LxConv114

Outras designações
Hospício dos Jesuítas do Maranhão; Hospício dos Jesuítas da Cotovia; Casa de São Francisco de Borja

Morada actual
Rua Luís Fernandes, Rua de São Marçal, Rua do Monte Olivete

Sumário
Criado para servir de residência dos procuradores jesuítas da América e Ásia, o Hospício de São Francisco de Borja localizava-se à Cotovia, mantendo-se em posse jesuíta até à expulsão da ordem em 1759. Após um breve período de dois anos no qual aí se instalou uma aula régia, nele funcionou o Seminário Patriarcal ao longo do remanscente do século XVIII. No início da década de 1840 era posse de privados, servindo de habitação, provavelmente assim se mantendo até à sua integral demolição em 1884.

Caracterização geral


Ordem religiosa
Companhia de Jesus

Género
Masculino

Caracterização actual


Situação
Hospício - Demolido(a)
Capela - Demolido(a)
Cerca - Urbanizada

Descrição


Enquadramento histórico
O Hospício de São Francisco de Borja, da Companhia de Jesus, localizava-se à Cotovia, num terreno compreendido entre a Rua do Monte Olivete, Rua de Santo António (actual Rua Gustavo Matos Sequeira), Rua de São Marçal e Travessa do Hospício (posteriormente Travessa de São Francisco de Borja, actual Rua Luís Fernandes).

Segundo Baptista de Castro serviria de residência [...] dos Procuradores Jesuítas da America e Asia (Mappa de Portugal, tomo III, p. 297), supondo António Feliciano Castilho que nele se tenha hospedado o Padre António Vieira (Castilho, p.69). Aquando da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal em 1759 (a 5 de Fevereiro do dito anno se lhe fez sequestro em todas as Casas, e fazenas que possuhião, ficando elles reclusos em S. Roque, e no Collegio de S. Antão com guardas militares; e a 19 do dito levarão prezos a todos os que estavão em o novo Hospicio de S. Francisco de Borja, na Cotovia - CASTRO, tomo II, p. 131-132), o edifício e respectiva cerca passaram para a posse do Colégio dos Nobres, incluido nos bens com que Pombal dotou a nova instituição e logo a seguir deram-no de aforamento a Guilherme José Belingue professor do Colégio (Matos Sequeira, Depois do Terramoto - volume I, p. 193). Nesse mesmo ano instalou-se no edifício do extinto hospício uma das aulas régias de retórica, grego e gramática latina (respectivamente ministradas pelos professores José Caetano de Mesquita, padre Miguel Daly e Aleixo Nicolau Scribot). Dois anos depois aí se instalou o Seminário Patriarcal que, depois do terramoto, havia antes já estado em S. Bento até junho de 1756 [e] depois, a requerimento do reitor, o padre Francisco Gonçalves Dias, mud[ad]o-se para a rua nova dos Cardais, instalando-se numas casas. [...] Em março de [1761], o reitor reclamou a feitura de obras à Congregação Patriarcal. Foi o arquitecto Mateus Vicente vistorizar o edifício; fez orçamentos, levantou a planta e tomou nota das indicações do reitor, que queria uma casa separada para os alunos mais pequenos, e das reclamações do mestre de música, o padre Nicolau Ribeiro Passo-Vedro, que exigia a construção de uma casa para a sua aula. Em abril fez-se nova vistoria, mas como as obras se demorassem o padre Gonçalves Dias meteu empenhos e conseguiu que elas começassem. Arrematou a obra o carpinteiro António Alvarez e concluiu-a em fevereiro de 1762, tendo-se dispendido 2:135.866 réis (Matos Sequeira, Depois do Terramoto - volume I, p.192-193).

O Seminário, que ao longo do século XVIII foi administrado pela família Belingue (primeiro por Guilherme e posteriormente pelo seu irmão Edmundo), foi prosperando, passando de um número de 17 alunos em 1775 para 41 em 1798 (Matos Sequeira, Depois do Terramoto - volume I, p.194-195).

Segundo Matos Sequeria, em 1791 instala-se no [...] edifício uma Fiação de Seda, à testa da qual estavam Mateus Biffigandi e sua mulher, tendo como mestre, ou oficial, o artífice Luís Bestau (Matos Sequeira, Idem, p. 195). Em apenas 6 anos o número de operárias diminui de 17 para apenas 2, tendo a fábrica encerrado nos primeiros anos de oitocentos. Em 1805, funcionava no edifício o Coleginho de São Marçal e em Maio de 1807 é autorizado o aluguer do edifício para nele se albergar o Filatório Piemontês (Matos Sequeira, Idem, Ibidem).

Em 1842 o edifício pertencia a Francisco Ferreira, que nesse ano o arrenda a António Feliciano de Castilho. Júlio de Castilho, filho do último, descreve o senhorio como um antigo guarda, ou coisa assim, do Real Collegio dos Nobres [...] velho quasi centannario, addido á Escola Polytechnica, e n'ella encarregado da cerca, e varredor. [...] [Três anos depois, Castilho muda-se e] tudo [...] mudou. Há edificações na horta; a casa amodernou-se; tem portas e janellas rasgadas de novo (Castilho, p.70, 73).

Em 1884 o edifício é demolido e o espaço da sua cerca e hortas contíguas é rasgado por uma nova rua (actual Rua Prof. Branco Rodrigues) e nos seus terrenos são construídos prédios de rendimentos e dois palacetes: da horta, aberta em ruas, já nada existe; o quintal, retalhado em fragmentos, deu para uns poucos de predios; a [antiga] habitação do poeta [António Feliciano Castilho] esta arrazada. Apenas se vê em pé o muro do pateo com o portão verde e tambem a parede do escriptorio, com a sua janella; ainda tem as vidraças, com os vidros todos arrombados!... [...] A nova casa, um d'estes predios modernos, muito grandes, muito vistosos, muito ricos, com muita cantaria e nenhum caracter, ficou recolhida, e com um terreiro alto á face da rua. Disseram-me que o dono é o sr. Luiz José Fernandes (Castilho, p. 74-75), que nela haveria de falecer e dar o nome à antiga Rua de São Francisco de Borja.

No Verão de 1887 as obras já se encontravam concluídas, nada restando do edifício do antigo hospício.

Caracterização arquitectónica
A mais completa descrição do antigo edifício é dada, já no último quartel de oitocentos por Júlio de Castilho, que nela viveu a sua infância (entre 1843 e 1845). Segundo o autor por uma notável excepção, ainda aquellas casas conservavam quasi intacta a feição primitiva (Castilho, p. 69), pelo que corresponderia, em traços gerais, ao que havia sido o hospício e/ou o posterior seminário:

Aquilo era uma vivenda perfeitamente poética [...]. Não passava o antigo hospicio de uma grande barraca, rez do chão, com um pateo pequeno, e um quintalão enorme, tremulado de sombras mysteriorsas. Para a rua [...] tinha uma janella só [...]. Todo o mais cahia sobre o quintal e o pateo.

Logo quem da rua transpunha o portão do pateo, sombreado por duas enormes arvores, que dão flores a que chama anaguas de Venus, tinha defronte de si, sob uma alpendrada inteiramente monastica, uma portaria de Mosteiro pobre. Esta portaria, alta de tres ou quatro degráus, abria para uma casa de entrada, sombria e nobre, ladrilhada e sonora. Do tecto, que era de cupola, pendia ainda o lampião dos Padres, grande, oitavado, de folha de Flandres com vidros; e aos dois lado d'este vestibulo, de paredes caiadas, com rodapé de azulejo, amezendavam-se dois pesados bancos de costas altas, que davam idéa vaga do que poderiam ter sido os potros da Inquisição.

Ao fundo, e correspondendo á porta, rompia-se outra, de um só batente, de madeira do Brazil almofadada, de hombreiras de pedra lioz muito singelas. Esta porta desfechava n'um corredor tambem ladrilhado, comprido, largo, e sem luz propria. Ao topo, desembocava o corredor n'uma casa grande, que tinha sido, segundo parecia, refeitorio do Hospicio, e do Seminario. Duas unicas janellas gradeadas, e uma porta de poucos degráus allumiavam esta casa, e cahiam sobre as perfumadas e luminosas ruas dos parreiraes.

Ao longo do corredor, pela banda esquerda, que era a do jardim, abriam-se algumas cellas, de boas dimensões, com janellas sobre o mesmo jardim, e abria-se tambem a porta da cosinha. Ahi ao pé rasgava-se na parede a roda, pela qual passavam d'antes os alimentos.

Voltando ao vestibulo por onde entrámos, se, em vez de enfiar em frente, pelo corredor de ladrilho, tomassemos por uma porta que havia á esquerda, achar-nos-hiamos n'outra passagem, ou sala, allumiada de duas janellas para o pateo, e communicando o vestibulo com a sala de recepção da casa. Esta era relativamente vasta, e muito composta, com janellas em duas faces: duas para o sul, sobre o quintal, das quaes se lobrigava uma fita de Tejo, e outra para o poente, sobre um terreirinho abrigado n'um angulo reintrante que o predio formava [...]

Ao nascente da sala ficava, isolado do resto da habitação, o escriptorio de Castilho, com a sua janella única, de peitos [...]

Havia algures mais uns quartos por cima [...]. Pegava com tudo isto, para a banda do norte, outra parte do Hospicio.

[...] A casa era em si mesmo severa, um tanto sombria até; [...] As portas escuras e almofadadas [...], a roda, os ladrilhos, as grades, uns poucos signaes evidentes do viver congregado, que parecia interrompido na vespera, tudo isso, até, mesmo umas ruinas da ermida de S. Francisco de Borja [...] ou do que quer que fosse, no jardim, para a banda da travessa d'aquella nome, dava a toda a habitação um cunho peculiar.

Essas austeridades porém [...] encarregava-se então de a disfarçar o quintalão, meio horta meio pomar, que circumdava o predio por tres lados. [...] Era um delicioso abraço de bucolismo.

Pela fronteira meridional [...] communicava o quintal com uma horta de outros donos, que seguia até á trazeira das casas da praça das Flores. O quintal ficava sobranceiro á horta por um precipicio ouriçado de cannaviaes densos, e que era, por assim dizer, um limite natural (Castilho, p.69-73)

Entre a década de 1840, na qual Castilho viveu na casa e ao qual reporta o texto anteriormente transcrito e o início da década de 1880, tudo isso mudou. [Passou a existir] edificações na horta; a casa amodernou-se; tem portas e janellas rasgadas de novo; o precipicio mesmo abaixou, não sei como (Castilho, p. 73).

Fontes e Bibliografia


Cartografia

[Enquadramento urbano | Hospício de São Francisco de Borja, 1834].

[Enquadramento urbano | Hospício de São Francisco de Borja, 2015].

Inventariantes


Tiago Borges Lourenço


© in patrimonium .net
Câmara Municipal de Lisboa
 Data: 2022-08-14